O dado saiu discreto, quase escondido no relatório mensal, como quem não quer chamar atenção. O esmagamento de soja nos Estados Unidos em agosto foi o menor em onze meses, e ao mesmo tempo o maior agosto já registrado na história do país. Parece contradição, mas não é. É o mercado respirando, ajustando, respondendo a milhões de decisões simultâneas de fazendeiros, esmagadores, exportadores, compradores chineses, formuladores de ração, produtores de biodiesel, cada um agindo por conta própria com informação que ninguém no Departamento de Agricultura tem, nem terá, nem poderia ter.

Repare no que está acontecendo aqui, porque é sutil e é importante. Nenhum burocrata de Washington decretou quantas toneladas de soja deveriam ser processadas em agosto. Nenhum comitê se reuniu para deliberar sobre a curva ideal de esmagamento. Nenhum plano nacional foi executado. E ainda assim, o resultado é um recorde histórico para o mês, sinal de que a demanda por óleo vegetal e farelo protéico está aquecida, provavelmente puxada pelo biodiesel e pela recomposição de estoques asiáticos. Tudo isso apurado pelos preços, comunicado pelos preços, coordenado pelos preços. O sistema mais sofisticado de processamento de informação já inventado pela humanidade, e ele não tem sede, não tem CNPJ, não tem ministro.

Enquanto isso, no Brasil, gastamos as próximas semanas discutindo se o governo vai criar mais um programa de apoio, mais uma linha de crédito subsidiada, mais um plano safra recheado de dinheiro alheio para produtores que já produzem, para exportadores que já exportam, para uma cadeia que funciona apesar de Brasília, não graças a ela. A soja brasileira é o maior escândalo silencioso da nossa economia: setor que virou gigante mundial justamente nas décadas em que o Estado teve menos capacidade de atrapalhar, e que agora é festejado por autoridades que jamais plantaram um pé de nada, como se o sucesso alheio fosse conquista própria.

Siga o dinheiro do próximo pacote de estímulo à agroindústria americana, ou do próximo Plano Safra tupiniquim, e você vai encontrar sempre o mesmo padrão. O contribuinte, invisível, pagando. O produtor médio, invisível, ajustando margem. E, muito visíveis, os beneficiários de sempre: as grandes tradings, os bancos que operam o crédito subsidiado, as associações setoriais bem posicionadas, os políticos que carimbam o programa e batem foto com produtor sorridente. Cada centavo tirado do pagador de impostos e entregue ao setor sob rótulo de política pública é dinheiro que deixou de circular em mil outras decisões descentralizadas, cada uma das quais teria produzido algo, empregado alguém, criado valor. Só que essas mil outras coisas ninguém vê, porque não aconteceram. O que se vê é a foto do ministro; o que não se vê é a economia que não foi.

A queda no esmagamento em relação aos meses anteriores, aliás, também é sinal saudável. Significa que os esmagadores estão respondendo a margens, a estoques, a expectativas de safra, e não empurrando produção contra a demanda real. Isso se chama disciplina de mercado, e nenhum planejador central consegue reproduzir. Onde o Estado planta agricultura por decreto, colhe fome; onde o mercado é deixado em paz, colhe recorde em agosto sem festa oficial. A União Soviética tinha mais terra arável que os Estados Unidos e importava trigo do inimigo capitalista para não deixar o povo morrer de fome. A Venezuela sentava em cima do maior oceano de petróleo do planeta e racionava gasolina. Cuba tem clima, terra e mão de obra, e importa açúcar. O padrão é sempre o mesmo, e a lição também: quanto mais o governo entende do assunto, menos o povo come.

O recorde de agosto nos Estados Unidos é a prova mensal, silenciosa, entediante para os jornalistas econômicos, de que o mercado livre entrega. Sem manchete, sem discurso, sem heroísmo. Só preço, incentivo e propriedade privada fazendo o serviço que nenhum ministério jamais fez em lugar nenhum do mundo. A pergunta que fica é por que insistimos, safra após safra, em atrapalhar o único sistema que já provou funcionar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.