A empresa britânica de proteômica saiu do silêncio para informar ao mundo que Helen Spice agora é diretora não executiva. O anúncio, tratado como acontecimento relevante, revela menos sobre a companhia e mais sobre o ecossistema no qual ela opera, um circuito fechado de nomeações cruzadas onde os mesmos nomes migram entre conselhos como cortesãos entre salões do Antigo Regime. A pergunta que ninguém faz é simples, quer dizer, o que exatamente uma diretora não executiva produz que justifique a atenção do investidor no dia em que sua nomeação vira comunicado oficial.
Olha, a figura do não executivo foi vendida como escudo contra abusos administrativos, como olhar independente que protegeria o acionista minoritário da voracidade dos executivos. Na prática, virou selo decorativo, credencial de compliance, casaca que se veste para as fotos regulatórias. O sujeito comparece a algumas reuniões por ano, aprova o que já foi decidido antes de entrar na sala e recebe honorários calibrados para não incomodar sua consciência nem seu padrão de vida. É o equivalente corporativo do nobre que assinava éditos sem lê-los porque a assinatura, e não o conteúdo, era o produto vendido.
Me diz uma coisa, quem paga essa arquitetura de aparências. O acionista paga, o consumidor paga, o pesquisador que poderia estar num laboratório em vez de num comitê paga. Cada camada de governança teatral que se adiciona a uma empresa listada em bolsa consome recursos que poderiam financiar ciência, produção, inovação real. A Proteome Sciences trabalha com biomarcadores proteicos, um campo onde cada libra deveria ir para reagente, para equipamento, para talento científico escasso. Em vez disso, uma fatia vai para a manutenção do ritual, para o gabinete acolchoado do diretor decorativo.
Há algo mais profundo aqui. O capitalismo de mercado supõe que o dono do capital decide, que quem tem pele no jogo comanda o jogo. O capitalismo de conselho, esse fenômeno que se consolidou nas últimas décadas, transferiu o poder real do acionista para uma casta profissional que circula entre companhias sem jamais arriscar patrimônio próprio. Eles decidem, mas não perdem. Eles cobram, mas não respondem. E quando algo desanda, a explicação é sempre a mesma, a governança falhou, precisamos de mais governança, mais comitês, mais diretores independentes. A doença se apresenta como cura.
O detalhe delicioso é que este arranjo se vende como conquista da modernidade, como sofisticação institucional que separa o joio do trigo. Se você derrubasse hoje toda essa estrutura de conselhos ornamentais e devolvesse ao acionista majoritário a responsabilidade direta pela empresa, os defensores do modelo gritariam que estamos regredindo ao século dezenove. Talvez estivéssemos, e talvez o século dezenove, com todos os seus defeitos, tenha produzido mais riqueza real per capita em uma geração do que este modelo de comitês produzirá em três.
A nomeação de Helen Spice não é o problema, é o sintoma. Ela provavelmente é competente, educada, credenciada, tudo que um currículo londrino consegue empilhar. O problema é o sistema que transforma a chegada de mais um nome ao conselho de uma pequena empresa de biotecnologia em notícia digna de comunicado formal ao mercado. Quando o ritual importa mais que o resultado, a decadência já entrou pela porta da frente e está redecorando a sala de reuniões.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.