A cena é filmada, distribuída, viralizada, e ainda assim ninguém quer olhar para o óbvio: uma advogada, suplente ao Senado numa chapa petista em Santa Catarina, leva chutes de agentes fardados no meio da rua, e o próprio partido que sustentou por vinte e tantos anos o inchaço da máquina repressiva agora se descobre, de repente, vítima do bicho que ajudou a engordar. O comunicado oficial exige “apuração rigorosa”, como se a apuração rigorosa fosse alguma novidade republicana, e não o mesmo teatro burocrático que se encena toda vez que a bota desce sobre a cara errada. A bota, coitada, não sabe ler crachá partidário.
Convém lembrar que o monopólio da violência é isto mesmo: um monopólio. E monopólio, por definição, não presta contas a consumidor, presta contas a acionista. Quando se financia por décadas o aumento de efetivo, o reajuste corporativo, o blindado novo, o adicional noturno, a diária de operação, a hora extra política, o que se está fazendo é comprar músculo. O músculo comprado não pergunta ideologia antes de bater. Ele bate no manifestante da direita, bate no manifestante da esquerda, bate no morador do morro, bate na advogada de terno, bate em quem estiver no caminho do cassetete. Foi esta a fatura assinada em cada orçamento aprovado, em cada emenda parlamentar carimbada para “segurança pública”, em cada silêncio conveniente diante das milícias que floresceram sob mandatos de todas as cores.
Aqui aparece a contradição performática que faz rir. O partido que hoje se comove pela candidata agredida é o mesmo que, quando esteve no comando, jamais tocou na estrutura militarizada da polícia estadual, jamais desmontou o resquício autoritário que herdou e reformou apenas cosmeticamente, jamais devolveu ao cidadão o direito elementar de se defender por conta própria e ainda tratou o desarmamento da população como conquista civilizatória. Desarmar o cidadão e blindar o Estado é a fórmula clássica, ensaiada em todos os regimes que se acham benevolentes até o dia em que descobrem que o cão de guarda também morde a mão que enche a tigela. Robespierre subiu no cadafalso construído por Robespierre. É de manual.
A palavra de ordem “violência política contra a mulher” também merece o bisturi. Não porque a agressão a uma mulher não seja, evidentemente, agressão; mas porque a categoria foi inventada para blindar politicamente um grupo específico e agora se torna o único vocabulário disponível para descrever o que, na verdade, é violência política contra o cidadão, qualquer cidadão, qualquer sexo, qualquer partido, qualquer CEP. Ao reduzir tudo ao recorte identitário conveniente, o comunicado do partido perde justamente a oportunidade de dizer a coisa mais grave e mais simples: o Estado bate em quem ele quer, quando quer, e a lei serve de enfeite depois. Mas dizer isso seria admitir que o problema não é a polícia bolsonarista, catarinense, capixaba ou paulista. É a polícia enquanto braço armado de uma entidade que se autofinancia com o seu salário e usa o produto do confisco para comprar o coturno que pisa no seu pescoço.
Siga o dinheiro e a farsa se desmonta em trinta segundos. Quem paga a diária do PM que chutou a advogada? O contribuinte catarinense, inclusive a própria advogada, que ao pagar IPVA, ICMS, IPTU e imposto de renda financia integralmente o coturno que lhe visitou o rosto. Quem recebe? A corporação, a estrutura sindical policial, a indústria de fardamento, a fábrica de munição não letal que muitas vezes de não letal só tem o nome, os fornecedores de viatura, os assessores parlamentares que vivem de propor “endurecimento” ou “humanização” conforme sopre o vento. Todo mundo fatura, menos quem apanha. E quem apanha, quando não é da tribo certa, apanha calado. Quando é da tribo certa, vira nota oficial e hashtag.
Resta a lição que ninguém quer aprender, porque aprendê-la significaria abrir mão do brinquedo. Se o poder de espancar existe, ele será usado; e será usado, cedo ou tarde, contra quem hoje aplaude o espancamento alheio. Não há polícia boa dentro de um arranjo em que ela responde ao político da vez e não ao cidadão que a sustenta. Não há “apuração rigorosa” possível quando o apurador, o apurado e o pagador da apuração são a mesma pessoa jurídica de direito público. O que há é o eterno retorno da mesma cena: a bota, o rosto, o comunicado indignado, o inquérito arquivado, o próximo orçamento aprovado sem debate, e a próxima vítima, que talvez seja você, leitor, no dia em que a sua causa deixar de ser a causa da moda. Rei nenhum vestiu roupa, e continua desfilando nu.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.