Olha o roteiro. Uma joint venture montada em 1996 entre a Puig e o laboratório Esteve pariu a ISDIN, marca de fotoproteção que virou culto entre dermatologistas do mundo inteiro. Trinta anos depois, a Esteve embolsa 1,2 bilhão de euros, sai pela porta da frente, e a Puig assume 100% do brinquedo. O comunicado oficial vem embrulhado em jargão corporativo sobre sinergia, expansão global e foco estratégico, quer dizer, aquele dicionário que existe justamente para você não perguntar o óbvio, quem paga a conta no final da fila?

Me diz uma coisa. Quando o preço de um protetor solar de 60 mililitros ultrapassa duzentos reais na farmácia brasileira, o que sustenta essa margem? Não é a química, que é conhecida há décadas. Não é a matéria-prima, que é commodity. É a marca, é a barreira de entrada, é o pacto silencioso entre gigantes do setor e órgãos reguladores que transformaram protetor solar em produto quase medicamentoso, com registros caros, testes obrigatórios e um labirinto burocrático que só quem tem bilhão no caixa consegue atravessar. A ISDIN não vale 2,4 bilhões de euros porque descobriu a cura do câncer de pele. Vale porque construiu um fosso regulatório que nenhum empreendedor pequeno consegue transpor.

E aí entra a parte que ninguém quer contar. Toda vez que um conglomerado engole uma marca desse porte, a narrativa oficial fala de criação de valor e eficiência operacional. Traduzindo, menos concorrência, mais poder de precificação, mais margem para o comprador e menos escolha para você que vai à farmácia. O consumidor final, aquele senhor abstrato em nome do qual todos os reguladores juram trabalhar, jamais é ouvido nessas mesas. Ele é o convidado ausente do próprio jantar em que serão discutidos os preços do cardápio dele.

A Puig, vale lembrar, não é uma startup de garagem. É a mesma casa que controla Rabanne, Jean Paul Gaultier, Carolina Herrera, Charlotte Tilbury e por aí vai. Está construindo pacientemente um império de luxo e cuidado pessoal que faturou mais de quatro bilhões de euros no ano passado e agora dobra a aposta em dermocosmética justamente no momento em que o mercado global de skincare virou a nova mina de ouro pós-pandemia. Nada disso é ilegal, nada disso é imoral em si. O ponto é outro. O ponto é que essa concentração só é possível porque o ambiente regulatório europeu e latino-americano premia o gigante e pune o anão, cria selos, certificações, agências nacionais de vigilância sanitária que exigem dossiês intermináveis, e no fim do dia quem sobrevive é quem tem departamento jurídico do tamanho de um batalhão.

O capitalismo real, aquele em que consumidor escolhe e concorrente entra, não produz oligopólios permanentes. Produz destruição criativa, marcas que sobem e caem, novos entrantes que humilham incumbentes preguiçosos. O que assistimos há trinta anos no setor de saúde e cosmética não é capitalismo. É feudalismo corporativo com bênção estatal, castelo cercado de fosso regulatório, e servos consumidores pagando o pedágio de cada passagem. A operação Puig-ISDIN não é a doença, é o sintoma. A doença é o modelo que transformou proteção do consumidor em muralha para proteger os grandes de qualquer aborrecimento vindo de baixo.

Enquanto isso, a família Esteve pega o cheque de 1,2 bilhão de euros e desaparece nos jornais econômicos com aquele sorriso discreto de quem sabe que jogou o jogo direitinho. Ninguém errou. Todos ganharam. Menos você, que vai continuar pagando duzentos reais no frasco de sessenta mililitros e agradecendo à ciência pela oportunidade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.