O recado veio sem rodeios, com aquela franqueza brutal que só os autocratas se permitem porque não precisam mentir para eleitor nenhum. Tropas europeias em território ucraniano significam guerra direta com a Rússia, ponto final. E enquanto o aviso ecoa pelas chancelarias do velho continente, o mesmo Kremlin dá o troco diplomático de sempre: podemos conversar em outubro, quem sabe. É o velho jogo do porrete e da cenoura, jogado por quem inventou o manual.

Antes de engolir a narrativa pronta do heroísmo europeu contra o urso soviético redivivo, convém fazer a pergunta que ninguém em Bruxelas quer ouvir: quem, exatamente, paga essa festa? O contribuinte alemão que viu sua conta de energia triplicar, o francês que reclama de aposentadoria roída pela inflação, o italiano que assiste sua indústria fugir para lugares onde o gás não é vendido pelo peso do ouro. E quem recebe? O complexo industrial bélico, os fundos que especulam com títulos de reconstrução, as ONGs internacionais que multiplicaram orçamentos, os políticos que descobriram na guerra distante uma fonte inesgotável de virtude barata.

A hipocrisia é operística. Os mesmos governos que juram defender a soberania alheia atropelam a de seus próprios cidadãos com censura, congelamento de contas, cassação de vistos e leis de emergência que se tornam permanentes. Os mesmos que gritam sobre democracia enviam bilhões sem consulta a parlamento nenhum, e depois cobram o boleto na forma de imposto novo, corte em serviço público, imprensa oficial e obediência silenciosa. É um teatro em que os figurinos custam bilhões, os atores repetem falas sem sentir uma vírgula, e a plateia paga o ingresso duas vezes: uma no bolso, outra no filho que virou estatística.

Historicamente, sempre foi assim. Impérios em decadência precisam de guerras longas e vagas para justificar impostos crescentes e a concentração de poder no executivo. A guerra dos trinta anos empobreceu a Europa central e enriqueceu banqueiros holandeses. A guerra da Criméia quebrou o czarismo e engordou os fornecedores de fardamento e pólvora. A primeira grande guerra do século passado começou como aventura patriótica de três meses e terminou como cemitério continental de vinte milhões de almas, com a moeda alemã virando papel higiênico e a americana virando reserva mundial. A regra é fria: quem sai de casa vestindo uniforme raramente é filho de quem votou pela guerra.

O detalhe cômico é o timing das negociações prometidas para outubro. Traduzindo o dialeto de gabinete, isso significa: já pilhamos o suficiente, o eleitorado está cansado, o inverno se aproxima, e o gás precisa correr. Toda guerra tem um cronograma financeiro, e ele nada tem a ver com a suposta defesa de valores. Tem a ver com contratos assinados, munições vendidas, terras redistribuídas, dívidas emitidas. O sangue é a variável menos importante da planilha, porque não sai do bolso de quem assina.

Enquanto isso, o europeu comum, esse coitado que já foi cidadão de nações orgulhosas e hoje é súdito de burocracias supranacionais, é convidado a bater palmas para o próprio esquartejamento. Vai pagar o imposto de guerra, vai enterrar o filho, vai congelar no inverno e ainda será chamado de reacionário se ousar perguntar por quê. Pergunte a quem paga e a quem recebe, e a fumaça retórica se dissipa em segundos. A conta é essa, sempre foi essa, e nenhum discurso solene sobre liberdade e democracia altera o boleto.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.