A Quadrise anunciou a concessão de 35 milhões de opções de ações a diretores e funcionários, e o comunicado veio embrulhado no papel de presente costumeiro dessas ocasiões, aquele em que se fala em "alinhamento de interesses", "retenção de talentos" e "compromisso de longo prazo". Traduzindo do dialeto de sala de reunião para o português corrente, a empresa acaba de imprimir participação societária do nada, distribuiu para quem já está dentro do castelo e vai cobrar a conta de quem está de fora, ou seja, do acionista que comprou a ação com dinheiro suado no mercado aberto.
Olha, o truque é antigo e sempre funciona porque a maioria não olha para o que não se vê. O que se vê é o executivo motivado, o funcionário engajado, a manchete simpática sobre governança moderna. O que não se vê é a fatia do bolo de cada acionista minoritário encolhendo silenciosamente, como uma barra de sabão no chuveiro. Ninguém sente na hora, porque não sai dinheiro da conta, mas a matemática é implacável: mais ações em circulação com o mesmo valor de empresa significa menos valor por ação. É confisco disfarçado de meritocracia.
E aqui vale seguir o dinheiro, porque toda operação dessas tem beneficiário concreto e vítima abstrata. O beneficiário tem nome, cargo, endereço e assinatura em contrato. A vítima é o pulverizado, o cidadão que comprou mil ações pela plataforma do banco achando que estava participando de uma história de crescimento, quando na verdade participa de uma história em que o cardápio da diretoria é servido antes do dele. Quer dizer, é um belo esquema: a diretoria decide o próprio bônus, o conselho aprova, o auditor carimba, o comunicado é redigido por consultoria de relações com investidores e o resultado é apresentado como virtude corporativa.
Tem ainda o argumento sagrado do "alinhamento de interesses", que merece um exame de laboratório. A ideia seria que o executivo, ao virar sócio, cuida melhor da empresa. Bonito no papel, mas quem paga o custo desse suposto alinhamento? Não é o executivo, que recebe as opções de graça ou a preço camarada. É o sócio que já estava lá antes, comprando ação no mercado com dinheiro real. Alinhar interesse gratuito com interesse pago é o tipo de aritmética que só passa em assembleia porque ninguém tem paciência de ler as notas explicativas.
O padrão se repete em empresa pequena, em empresa grande, em empresa de tecnologia, em petroleira, em banco, em varejo. Sempre com a mesma liturgia de palavras oficiais, sempre com a mesma justificativa técnica, sempre com o mesmo desfecho: quem já mandava, mandou mais; quem já tinha, teve menos. E o mercado aplaude, porque o mercado, quando fala institucionalmente, é feito das mesmas pessoas que ganham com o arranjo. O acionista pipoca aplaude também, porque foi treinado para achar que reclamar de plano de opções é coisa de investidor amador.
No fim, o episódio da Quadrise é apenas mais um capítulo de um manual que virou dogma da governança contemporânea, o de que quem senta na cadeira grande tem direito natural a servir-se do prato antes de todo mundo. Chamam isso de modernidade, de best practice, de padrão internacional. Sempre foi só um nome bonito para uma coisa velha: o poder se recompensando à custa de quem não estava na sala.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.