A notícia é apresentada como se fosse revelação de laboratório suíço, mas qualquer sujeito que já empurrou um carrinho de feira ladeira acima sabe do que se trata: manter velocidade constante, entre 65 e 90 quilômetros por hora, com marcha alta e sem acelerações de adolescente, faz o motor beber menos. Espantoso. É como descobrir, depois de séculos, que a água molha. E, no entanto, precisamos de testes, engenheiros, planilhas e reportagens para nos comunicar aquilo que qualquer avô já dizia mastigando pão com manteiga: acelera devagar, guarda o pé, olha o horizonte.

Ocorre que a matemática do consumo é apenas metade da história, e não a mais interessante. A outra metade, a que ninguém publica em manchete, é a composição do preço do combustível que sai da bomba. Rode a 70, rode a 120, rode a pé se quiser: mais da metade do que você paga por litro é tributo. Cide, PIS, Cofins, ICMS estadual, margem da estatal, e a alegre orquestra dos intermediários que vivem do arranjo. O motorista disciplinado economiza dez por cento no consumo e devolve setenta por cento ao Leviatã a cada abastecimento. Chamam isso de eficiência energética; o nome correto é servidão com velocímetro.

Observe a beleza do esquema. O governo tributa o combustível a níveis obscenos, depois publica cartilha ensinando o cidadão a consumir menos daquilo que ele mesmo tornou proibitivo. É a lógica do agiota que empresta a juros de trezentos por cento e depois oferece curso de educação financeira. Ensinam o pobre a apertar o cinto enquanto afrouxam o próprio, e ainda cobram gratidão pelo conselho. A faixa mágica dos 65 aos 90 quilômetros por hora não é descoberta de engenharia, é confissão involuntária de que o preço da liberdade de andar mais rápido virou luxo aristocrático.

Há ainda o capítulo hilariante das multas por velocidade. O Estado te cobra pesadamente para que você economize combustível dirigindo devagar, e simultaneamente instala radares que te multam caso você ouse dirigir devagar demais em pista de fluxo rápido, ou rápido demais em avenida onde o pedágio precisa fingir zelo. O motorista virou gado tarifado por metro rodado, taxado na entrada, no meio e na saída, e ainda assina de cruz o boletim informativo que ensina a pastar com moderação. Se a coisa fosse honesta, o próprio governo colaria adesivo no vidro traseiro: obrigado por circular, seu esforço financia nossa festa.

A regra prática, portanto, vale sim, e vale muito: rode constante, use marcha alta, esqueça a birra do semáforo e trate o acelerador como se fosse copo de uísque caro. Ganhará quilômetros, poupará dinheiro, chegará inteiro. Mas guarde na cabeça a lição maior, aquela que nenhum tutorial de economia doméstica escreve com todas as letras: o verdadeiro consumo excessivo do seu carro não está no pé direito, está na nota fiscal. Você pode dirigir como monge tibetano que, enquanto o imposto embutido no litro continuar sendo o que é, seguirá sustentando palácio, penduricalho, emenda de relator e comitiva a Paris com o mesmo entusiasmo com que abastece o tanque.

Quem paga é você, ao volante, obedecendo à faixa aconselhada e às placas eletrônicas. Quem recebe é o mesmo de sempre, sentado em cadeira estofada, sem carteira de habilitação vencendo, sem preocupação com o preço da bomba, ensinando pelas emissoras oficiais que dirigir devagar é gesto cívico. É cívico, sim, mas para o bolso deles. O seu segue vazio, agora com a consolação técnica de ter esvaziado a 78 quilômetros por hora, em quinta marcha, com ar-condicionado desligado e paciência de santo.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.