A manchete chega com ar didático, quase paternal: reduza o banho de oito para cinco minutos e economize o valor de um botijão de gás por ano. Traduzindo para o português dos boletos, o cidadão que ousar lavar o cangote por três minutos a mais está queimando, literalmente, cento e trinta e sete reais anuais em resistência elétrica. A matemática é apresentada como conselho de tio sábio, mas o que ela realmente diz é outra coisa, e diz aos gritos: a energia neste país ficou tão cara que o banho quente, aquele pequeno prazer proletário que já foi símbolo de dignidade mínima, agora é rubrica de austeridade doméstica.

Vamos ao fato concreto antes que a poeira da retórica se assente. Um chuveiro de sete mil e quinhentos watts consome, em oito minutos, aproximadamente um quilowatt-hora. Com a tarifa média nacional flertando com um real por quilowatt, o banho custa cerca de três reais e vinte centavos por semana, quinze por mês, cento e oitenta por ano. Encolha para cinco minutos e você poupa o tal botijão. A pergunta que o articulista bem-comportado esqueceu de fazer, porém, é esta: por que raios um banho de oito minutos custa hoje o que custava um banho de vinte minutos há uma década? Ninguém entra no chuveiro pensando em termodinâmica, entra pensando em água quente. E a água esfriou porque alguém, em algum gabinete, decidiu que esfriaria.

Siga a trilha do dinheiro e o labirinto vira corredor reto. A conta de luz brasileira é uma matrioska de encargos: bandeira tarifária, conta de desenvolvimento energético, subsídio para geração distribuída, subsídio para carvão mineral, subsídio para a irrigação do agronegócio, subsídio para o consumidor de baixa renda que o vizinho de classe média paga, PIS, COFINS, ICMS de alíquota digna de importação de uísque escocês. Cada centavo que sai do seu chuveiro rega um jardim particular em algum lugar. Existe um exército de rentistas fantasiados de defensores do meio ambiente, de campeões nacionais, de operadores estratégicos, todos com CNPJ, todos com lobby, todos com a mão firme dentro do seu bolso enquanto você tirita debaixo do chuveiro morno contando os segundos como quem faz jejum religioso.

A elegância cínica do arranjo está no truque narrativo. Transferem para o indivíduo a responsabilidade por um problema que foi criado, alimentado e engordado pela caneta estatal. A hidrelétrica seca é culpa da chuva, o gás caro é culpa da geopolítica, o preço da luz é culpa do consumidor que insiste em querer se lavar como gente. É o velho truque do batedor de carteiras que aponta para o outro lado da rua enquanto enfia os dedos no seu casaco. Quando o cidadão engole a culpa, o operador do esquema não precisa nem se dar ao trabalho de mentir com competência, basta apontar para o cronômetro do banheiro e sair assobiando.

Há algo de profundamente humilhante em ver um país continental, com o maior potencial hidrelétrico do hemisfério, com sol o ano inteiro, com vento no Nordeste que derruba coqueiro, chegar ao ponto de recomendar banho de cinco minutos como estratégia patrimonial. Nações que perderam guerras mundiais tomam banhos mais longos. A escassez aqui não é natural, é fabricada, é decreto, é agenda, é contrato de concessão redigido para beneficiar quem pagou a campanha de quem assinou. E o resultado dessa engenharia meticulosa é apresentado à população como se fosse uma lei da física, quando é apenas uma lei ordinária aprovada às três da manhã por parlamentares que tomam banho de banheira em apartamentos funcionais com conta paga pelo contribuinte.

A moral da história, portanto, não é econômica, é política, e política no sentido mais sujo da palavra. Todo conselho de economia doméstica que parte de um veículo alinhado ao establishment carrega dentro de si a mesma mensagem subliminar: aceite, adapte-se, encolha-se. Reduza o banho, reduza a carne, reduza o carro, reduza a expectativa, reduza a si mesmo até caber no orçamento que sobrou depois que os amigos do rei se serviram primeiro. A resistência começa por recusar o enquadramento. O problema não é o seu chuveiro de sete mil e quinhentos watts, o problema é o parasita de milhões de watts instalado entre a usina e a sua tomada. Cronometrar banho é o novo rapé para as massas: distrai, consola, e enquanto isso o bolso continua vazando pelo ralo.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.