A manchete chega com fanfarra: trinta e três hospitais brasileiros figuram entre os melhores do mundo em pelo menos uma especialidade, segundo levantamento de uma revista americana somado a uma consultoria alemã de pesquisa. Seiscentas e oitenta e quatro instituições de mais de trinta países foram citadas, e o Brasil aparece bem posicionado, com nomes de São Paulo, do Rio, de Porto Alegre e de Belo Horizonte ostentando selos internacionais. Muito bonito. O problema é que ninguém pergunta o óbvio: quantos brasileiros conseguem, de fato, cruzar a porta desses hospitais sem passar antes por um plano de saúde caríssimo ou por uma indicação política? A resposta é o silêncio constrangido de quem sabe que a vitrine não é o estoque.

Existem dois Brasis empilhados no mesmo território, e o ranking mostra apenas o andar de cima. Há o país dos hospitais premiados, com equipamentos importados, centros de pesquisa financiados por doações privadas, corpo clínico treinado no exterior e pacientes que pagam ou têm quem pague por eles. E há o outro, o da maioria, que espera oito meses por uma consulta com cardiologista, que descobre um câncer em estágio quatro porque o exame preventivo demora um ano, que morre em macas encostadas na parede de pronto socorro enquanto o secretário municipal de saúde inaugura placa. O mesmo cidadão que sustenta com seus impostos essa engrenagem quebrada é o que jamais colocará os pés nos corredores climatizados dos hospitais premiados. Ele financia os dois sistemas e é atendido por um só, o pior.

Siga a trilha do dinheiro e a mágica se desfaz. Os hospitais de excelência que aparecem no ranking são, quase sem exceção, instituições privadas ou filantrópicas com forte captação no mercado, ou hospitais universitários que operam com orçamentos protegidos e captação internacional de pesquisa. Ou seja, são ilhas de gestão relativamente livre num oceano de burocracia estatal. Onde há concorrência, escolha do paciente e responsabilidade individual pelo resultado, aparece qualidade. Onde há monopólio compulsório, filas administradas por decreto e servidor estável independentemente do desempenho, aparece o corredor do posto de saúde às cinco da manhã com senha distribuída como se fosse ração. Não é coincidência, é regra. As coisas são o que são, não o que a propaganda oficial quer que sejam.

E ainda tem a graça fina do arranjo: o mesmo governo que sufoca o setor com carga tributária de meia Europa, com regulação sanitária labiríntica, com controle de preços em medicamentos e com uma Agência que trata cada aprovação como favor pessoal, esse mesmo governo bate no peito quando um hospital brasileiro aparece em ranking estrangeiro. Como se o mérito fosse dele. É o cozinheiro que queima o feijão todos os dias e reivindica o troféu quando o vizinho, por milagre, consegue fazer um prato decente. A indústria da saúde brasileira floresce apesar do Estado, não por causa dele. Cada exceção que aparece no ranking é a prova viva do que o setor inteiro seria se o pé da bota administrativa saísse de cima do pescoço da iniciativa privada e das santas casas centenárias que sobrevivem a duras penas.

Enquanto se aplaude a vitrine, o custo se acumula em outro balcão. O brasileiro médio paga imposto sobre a renda, paga imposto sobre o consumo, paga contribuição previdenciária, paga taxa municipal, e no fim, para não morrer na fila do sistema que já financiou, paga ainda um plano de saúde com o que sobra do salário. É a técnica clássica do assalto por camadas: você é tributado para financiar um serviço público, o serviço público não funciona, então você paga de novo pelo privado. E ainda deve gratidão porque, num canto do país, existe um hospital que ganhou selo de qualidade internacional. Se isso não é a definição perfeita de trouxa iluminado, alguém precisa cunhar palavra nova.

A conclusão é chata de tão evidente. O Brasil tem gente competente, tem capital humano, tem instituições capazes de competir com o que há de melhor no planeta. O que o Brasil não tem é um Estado disposto a sair do caminho. Cada hospital premiado é um monumento involuntário à liberdade que ainda resta, e cada fila de SUS é um monumento à violência silenciosa de um monopólio que se apresenta como caridade. Quem paga? O contribuinte, sempre. Quem recebe? Os poucos que conseguem furar a fila, e a burocracia que administra a miséria e sai na foto quando alguém, contra todas as apostas, faz alguma coisa direito. O ranking, no fundo, não é motivo de orgulho nacional. É acusação formal.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.