A Rapport Therapeutics subiu ao palco do summit da TD Cowen com aquele ritual clássico das biotechs de estágio clínico, o discurso do "estamos chegando lá", com dados de mania bipolar prometidos para o horizonte próximo. Traduzindo do jargão de investidor para o português: uma empresa que ainda não vende nada, ainda não curou ninguém, está sendo avaliada em centenas de milhões de dólares porque um punhado de analistas de banco decidiu que talvez, quem sabe, num futuro incerto, o composto funcione. E o mais curioso é que ninguém no auditório acha isso estranho.
Olha, existe uma diferença brutal entre o que se vê e o que não se vê nesse tipo de evento. O que se vê é a apresentação polida, o slide bonito, o CEO articulado falando em milestones e endpoints primários. O que não se vê é a montanha de capital que já foi torrada em compostos semelhantes que morreram na fase três, o dinheiro de fundos de pensão americanos apostado como quem joga na roleta, e principalmente o fato de que boa parte desse ecossistema só existe porque o Federal Reserve passou uma década inteira mantendo juros artificialmente perto de zero, empurrando poupador prudente para o cassino do risco.
Quer dizer, o mercado de biotecnologia não é livre no sentido que os panfletos ensinam. É um mercado dopado por dinheiro barato lá em cima, protegido por patentes concedidas pelo governo lá embaixo, e regulado por uma agência que decide quem vive e quem morre no pipeline. Se a molécula da Rapport funcionar, ótimo, alguém vai ganhar bilhões. Se não funcionar, os primeiros a saltar do barco serão os insiders com informação privilegiada, e o varejista otimista vai ficar segurando o mico. É o arranjo de sempre, só muda o nome do composto no prospecto.
E aqui vale seguir o dinheiro até onde ele realmente vai parar. Uma vez aprovado um medicamento novo para transtorno bipolar nos Estados Unidos, o preço de tabela raramente sai por menos de mil dólares por mês, porque o sistema americano é uma mistura barroca de seguro privado subsidiado por incentivo fiscal, medicare bancado pelo contribuinte, e pharmacy benefit managers que embolsam o rebate entre o preço de lista e o preço efetivo. Ninguém sabe quanto custa de verdade, e essa opacidade é o negócio, não o defeito. Preço em mercado saudável é sinal; preço em mercado capturado é ruído.
Enquanto isso, no Brasil, o portador de transtorno bipolar depende do lítio genérico que a farmácia popular às vezes tem, às vezes não tem, prescrito por psiquiatra do SUS que agenda para daqui a quatro meses. A inovação farmacêutica global chega aqui com dez anos de atraso, preço em dólar convertido pelo câmbio de país emergente, e um sistema regulatório que copia o pior da FDA sem herdar a capacidade de fiscalização. O paciente brasileiro paga a conta do laboratório americano via patente internacional, paga a conta do governo brasileiro via imposto sobre o mesmo remédio, e ainda assim é chamado de sortudo por ter acesso à saúde pública.
A moral da história é a de sempre nesses summits de banco: quando uma indústria inteira depende de dinheiro barato do banco central para financiar suas apostas, de patente estatal para proteger seu retorno, e de compra centralizada de governo para garantir seu comprador final, chamar isso de capitalismo é ofender a palavra. É corporativismo de bata branca, com apresentação em PowerPoint e coquetel no final. O paciente que vá se virar com o genérico.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.