A cena é quase cômica. Analistas de um dos maiores bancos de investimento americanos reuniram planilhas, modelos, projeções e ideias supostamente brilhantes para concluir, com ar de quem revelou o segredo da fissão nuclear, que os tais agentes autônomos de inteligência artificial terão como primeira aplicação comercial relevante a geração de leads. Ou seja, robôs sofisticadíssimos, treinados com bilhões de parâmetros, vão fazer o trabalho que qualquer vendedor de plano de celular faz no shopping: caçar contato, empurrar demonstração, marcar reunião. Bilhões de dólares em capex, gigawatts de energia, tratados diplomáticos por chips, tudo isso para automatizar a ligação chata que ninguém quer atender.

Antes de rir, convém prestar atenção no que a nota do banco não diz. Quando uma casa de análise anuncia com pompa que determinado setor é o "caminho provável" de uma tecnologia, o que ela está fazendo, na prática, é sinalizar aos seus clientes onde alocar capital. Existe uma indústria inteira, silenciosa e lucrativíssima, que vive de fabricar o próximo consenso. Primeiro se planta a narrativa nos relatórios, depois se vende a ação, depois se lança o fundo temático, depois se cobra a taxa de administração, e no fim se atribui à sabedoria dos gestores um movimento que foi combinado três degraus atrás na escada. A tal "descoberta" da geração de leads é menos uma tese e mais um convite para você comprar o que eles já compraram.

Há também uma ironia estrutural que ninguém no mercado quer encarar de frente. Os agentes de IA precisam de leads porque as empresas que os vendem precisam desesperadamente provar receita recorrente para sustentar avaliações que hoje só se justificam em planilha do Excel com premissa de crescimento exponencial até 2035. É o cachorro correndo atrás do próprio rabo: a IA gera leads para vender IA para empresas que usarão IA para gerar mais leads. Em algum ponto dessa cadeia alguém precisa produzir algo que não seja mais um contato qualificado, senão a economia inteira vira uma pirâmide de vendedores empurrando software um para o outro.

E aqui aparece a parte que os economistas de terno bem cortado gostam de ignorar. Toda inovação genuína, aquela que muda a vida das pessoas comuns, começou fazendo algo concreto: iluminar casa, transportar carga, curar doença, encurtar distância. Quando a tecnologia mais celebrada de uma década se apresenta ao mundo prometendo, como primeiro grande caso de uso, automatizar a prospecção comercial, isso diz menos sobre o poder da tecnologia e mais sobre o estado terminal da economia que a produziu. Uma civilização produtiva inventa a eletricidade; uma civilização financeirizada inventa o robô que liga para vender eletricidade que você já tem.

O que se vê é o comunicado triunfante do banco. O que não se vê são as milhares de posições de trabalho humano que essa mesma tecnologia vai varrer sem que ninguém tenha combinado com o padeiro, o atendente, o gerente de conta júnior. Não se vê o custo energético monstruoso rateado em conta de luz que sobe para o cidadão comum enquanto os data centers consomem a rede de uma cidade média para responder emails automatizados. Não se vê o subsídio cruzado, disfarçado de política industrial, que os governos ocidentais estão despejando no setor para não perderem a corrida contra a China, dinheiro que sai do bolso de quem paga imposto e entra no balanço de quem já vale um trilhão. A geração de leads é a fachada; a transferência de riqueza é o negócio.

Talvez a lição mais amarga seja essa: quando o mercado livre é sequestrado por bancos centrais, subsídios estatais e cartéis regulatórios, até a inovação vira caricatura. A tecnologia que poderia libertar acaba domesticada para servir o mesmo velho arranjo, empurrar consumo, engordar múltiplo, alimentar bônus de fim de ano. O agente de IA da moda não vai te libertar de nada. Vai só te ligar mais vezes, em horário pior, oferecendo coisas que você não pediu, e cobrar por isso como se fosse o futuro. O futuro, meu caro leitor, chegou. E ele quer agendar quinze minutinhos na sua agenda.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.