A RBC Capital iniciou a cobertura da CenterPoint Energy com recomendação neutra, e o mercado tratou o comunicado como se fosse revelação divina. Uma concessionária de gás e eletricidade que atende milhões de consumidores no Texas, em Indiana, em Ohio e em Minnesota tem seu destino financeiro parcialmente reprecificado porque um analista, num escritório envidraçado, decidiu que o momento pede cautela. Quer dizer, a empresa continua entregando energia exatamente como entregava ontem, os canos continuam onde estavam, os postes idem, mas a "percepção de valor" oscila conforme o texto de uma nota que pouca gente leu inteira.

Olha, o negócio de utilities americano é fascinante justamente porque não é livre mercado coisa nenhuma. É um dos setores mais capturados do capitalismo ocidental, uma zona cinzenta onde a empresa opera com monopólio geográfico garantido pelo Estado, tem tarifa aprovada por agência reguladora, tem retorno sobre patrimônio praticamente carimbado por comissão estadual, e depois se apresenta ao investidor como se fosse um empreendimento de risco. Não é. É um contrato de renda quase fixa disfarçado de ação, e o "risco" que o analista precifica é basicamente político, regulatório e climático, nunca competitivo. Porque competição, nesse setor, é palavra proibida.

Me diz uma coisa: quem ganha com a recomendação neutra? A RBC ganha honorários de banco de investimento, ganha fluxo de ordens, ganha relevância editorial. Os grandes fundos ganham cobertura para justificar posições que já tinham decidido tomar. A CenterPoint ganha exposição num relatório que circula em Bloomberg terminal do mundo inteiro. O consumidor do Texas, que paga a conta de luz no fim do mês, não aparece em lugar nenhum dessa equação. E é justamente ele quem sustenta a receita da empresa, os dividendos do acionista, o bônus do executivo e a fee do analista. A cadeia inteira depende dele, e ninguém escreve relatório sobre isso.

O que a nota da RBC não diz é o que interessa. Não diz que a CenterPoint atravessa investimentos bilionários em resiliência de rede depois do vexame do furacão Beryl, quando deixou milhões de texanos sem energia por dias. Não diz que boa parte desse capex vai ser jogada na tarifa do consumidor via processo regulatório, com carimbo da comissão estadual. Não diz que a empresa opera num arranjo onde o prejuízo é socializado e o retorno é garantido por lei. Recomendação neutra num setor assim é quase pleonasmo, porque o modelo de negócio já foi neutralizado pela regulação. O que resta é apostar em qual comissário estadual vai ser mais generoso na próxima revisão tarifária.

E aí está o ponto que ninguém quer tocar. O investidor brasileiro que olha para esse tipo de ativo com inveja precisa entender que está admirando não a eficiência do mercado americano, mas a sofisticação do arranjo regulatório que garante rentabilidade previsível a custo do usuário cativo. É o mesmo mecanismo que rege as distribuidoras de energia daqui, só que com marketing melhor, jargão em inglês, e analistas de terno em Manhattan em vez de terno em Faria Lima. A natureza da coisa é a mesma: monopólio protegido, tarifa negociada com burocrata, lucro pactuado, risco terceirizado para quem acende a luz de manhã.

No fim, a recomendação neutra da RBC é honesta à sua maneira. Diz, sem dizer, que não há nada de extraordinário para se esperar de uma empresa cujo destino não é decidido por seus clientes livres, mas por comissões regulatórias, tribunais estaduais e a política climática do momento. Neutro é o adjetivo perfeito para descrever um ativo que não pode ganhar demais nem perder demais, porque foi desenhado justamente para essa mediania protegida. O mercado aplaude, o consumidor paga, e a ficção do capitalismo continua rodando no piloto automático.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.