A RBC Capital acordou nesta semana e decidiu que a Kraken Robotics, fabricante canadense de sonares e veículos submarinos autônomos, merece a bênção do outperform. Traduzindo do dialeto de Wall Street para o português dos mortais, o banco está dizendo ao seu rebanho de clientes que a ação vai render mais que a média do setor. O mercado obedeceu no ato, como sempre obedece, porque o preço de uma empresa cotada em bolsa hoje não reflete o que ela produz, e sim o que um punhado de casas de análise decidiu sussurrar no ouvido dos gestores de fundos que administram dinheiro alheio.
Olha, o negócio da Kraken é bonito no papel. Sonar de abertura sintética, veículos não tripulados, contratos com marinhas ocidentais que estão redescobrendo o Ártico, o Mar do Norte e o Indo-Pacífico como teatros de disputa geopolítica. A demanda existe, é real, e provavelmente vai crescer nos próximos anos, porque submarino russo e chinês não desaparece porque o Financial Times pediu por favor. Até aqui, tudo bem. O problema não é a empresa. O problema é o teatro que se monta em volta dela.
Quer dizer, veja o roteiro: um banco de investimento inicia cobertura, publica um relatório de trinta páginas com gráficos que qualquer estagiário monta em duas tardes, define um preço-alvo tirado de projeções que ninguém audita, e a ação salta. Quem estava comprado antes do relatório embolsa o ganho, quem entra depois paga a conta do próximo ciclo. Os incentivos são transparentes para quem quer enxergar: o banco vende o relatório, vende a corretagem, vende serviços de banco de investimento à própria empresa coberta, e ainda cobra taxa de administração do fundo que comprou a ação por recomendação dele mesmo. É um circuito fechado que se retroalimenta, e o pequeno investidor entra como carne fresca no fim da fila.
Me diz uma coisa: quando foi que o mercado deixou de ser um mecanismo descentralizado de descoberta de preços e virou um púlpito onde meia dúzia de instituições recita salmos que o resto do mundo repete? A resposta está em décadas de política monetária frouxa, juros artificialmente baixos e uma indústria de gestão passiva que terceirizou o discernimento para índices e recomendações de terceiros. Quando o dinheiro é barato e abundante, ninguém precisa pensar. Basta seguir o pastor. O problema é que o pastor tem carteira própria, e quando o rebanho descobrir, já vai ter sido tosquiado.
E tem a camada oculta do assunto, que é a mais interessante e a que a Investing.com jamais vai destacar. A Kraken vive de contratos governamentais, e contratos governamentais vivem de orçamentos militares, e orçamentos militares vivem de tensão geopolítica que os próprios governos alimentam com uma mão enquanto financiam empresas defensivas com a outra. Não é conspiração, é aritmética. O contribuinte canadense, americano, britânico, paga imposto para que sua marinha compre sonar, e o mesmo contribuinte, se tiver aplicação em fundo indexado, ganha uma fatia pequena do lucro dessa transação. Só que o lucro concentrado fica com os acionistas majoritários e com os bancos que estruturam a festa. A conta fica difusa. O prêmio, concentrado. Sempre foi assim, sempre vai ser.
Não estou dizendo que a Kraken é ruim, nem que o relatório da RBC é fraudulento no sentido criminal. Estou dizendo algo mais incômodo: que o sistema inteiro de recomendação, análise e formação de preço em bolsa opera sob incentivos que raramente coincidem com os interesses de quem coloca o dinheiro. E que qualquer um que compre uma ação porque um banco disse que era boa ideia está delegando o julgamento próprio para quem lucra com o julgamento errado dele. Se a ação subir, ótimo, palmas para o analista. Se cair, o relatório terá uma nota de rodapé que ninguém leu isentando o banco de qualquer responsabilidade. Cara eu ganho, coroa você perde. É o mais velho dos truques, e continua funcionando porque a maioria prefere confiar no oráculo a fazer o dever de casa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.