O RBC Capital Markets acaba de rebaixar a LVMH, o conglomerado de Bernard Arnault que reúne Louis Vuitton, Dior, Tiffany, Moët e mais setenta e cinco marcas que juntas simbolizam o topo do consumo mundial. Motivo declarado: fraqueza persistente na demanda por luxo, especialmente na China e nos Estados Unidos. Traduzindo do economês bancário para o português: os ricos e aspirantes a ricos que sustentavam vendas de dois dígitos ano após ano descobriram, com atraso vergonhoso, que a conta do banquete monetário da última década vinha em euros de verdade, não em papel colorido do Banco Central Europeu.

Olha, tem uma lógica antiga que nenhum MBA de Wharton consegue revogar: quando o crédito é artificialmente barato, todo mundo se sente mais rico do que é. O empresário chinês compra a segunda Birkin, o executivo americano leva a terceira Rolex, o funcionário da big tech parcela o Cartier em doze vezes sem juros porque a ação da empresa dele subiu trinta por cento graças a taxa zero. Isso não é prosperidade, é miragem contábil. E toda miragem termina do mesmo jeito, com o sujeito de joelhos na areia perguntando onde foi parar o oásis.

A LVMH foi a maior beneficiária dessa festa e agora será a maior vítima da ressaca, o que é matematicamente inevitável e moralmente justo. Quem cavalgou a bolha do dinheiro fácil não pode reclamar quando a bolha estoura. As margens obscenas do setor de luxo, aquelas que faziam analistas jurarem que Arnault tinha descoberto a alquimia definitiva, nunca vieram do gênio empresarial isolado; vieram do casamento perverso entre banco central complacente e consumidor endividado até a alma. Retire o combustível monetário e o motor da grife mais poderosa do mundo engasga como qualquer outro.

Me diz uma coisa, quantas vezes ainda vamos ter que assistir esse filme para entender o roteiro? A cada ciclo de expansão de crédito o mercado escolhe um setor para transformar em altar da nova religião do crescimento eterno. Foram as ponto com em 2000, foram os imóveis americanos em 2007, foram as criptomoedas em 2021, foi o luxo europeu em 2024. Em todos os casos, o mesmo discurso: dessa vez é diferente, dessa vez a demanda é estrutural, dessa vez existe um novo consumidor asiático que vai comprar para sempre. E em todos os casos, o mesmo final: o banco de investimento que empurrou a ação a duzentos euros publica um relatório rebaixando quando ela cai para cento e vinte, cobrando taxa dos dois lados da operação.

O detalhe que ninguém dos grandes veículos vai sublinhar é este: a fraqueza na China não é conjuntural, é sintoma de que o modelo de crescimento por endividamento estatal esgotou o combustível. E a fraqueza nos Estados Unidos é sintoma de que a classe média, aquela que financiou o consumo aspiracional das grifes por décadas, foi triturada por uma inflação acumulada que nenhum índice oficial mede honestamente. Sobra o topo do topo, umas poucas centenas de milhares de indivíduos globais, para sustentar um setor calibrado para milhões. A matemática não fecha, e nenhum plano de marketing consegue reescrever aritmética.

No fim, o rebaixamento do RBC é apenas o cartório reconhecendo o óbvio com meses de atraso. A verdadeira lição é outra e vai muito além de uma ação francesa: qualquer prosperidade construída sobre juros artificialmente baixos e liquidez fabricada por decreto é empréstimo, não riqueza, e o cobrador sempre bate na porta. Bolsa de couro não protege ninguém do vento frio da realidade econômica.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.