O Reserve Bank of India anunciou operações de swap cambial no valor de dez bilhões de dólares com o objetivo declarado de drenar liquidez excedente do sistema financeiro. Traduzindo do dialeto dos bancos centrais para o português dos mortais: o banco emissor indiano jogou rúpia demais na praça, viu o câmbio ameaçar, a inflação farejar e a curva de juros grunhir, e agora sai recomprando dólar futuro para tirar da mesa o dinheiro que ele mesmo pôs ali. Chamam isso de instrumento de política monetária. O nome honesto seria confissão de culpa em forma de planilha.

Repare no truque. O banco central injeta liquidez quando quer "estimular a economia", "estabilizar o câmbio" ou "acalmar o mercado", sempre com três verbos benevolentes na ponta da língua. Meses depois, quando os preços começam a subir e o rupia começa a escorregar, o mesmo banco central aparece com ar grave para "drenar" o que ele mesmo criou. É o bombeiro que ateou fogo na casa vendendo mangueira para o proprietário. E a imprensa financeira, docilmente, chama de sofisticação técnica aquilo que em qualquer outro ofício seria chamado de incompetência dolosa.

Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais clara. Quem recebeu a liquidez farta que agora precisa ser drenada? Bancos comerciais, tesourarias, grandes players que operam colados no balcão do banco central e ganham nos dois lados do ciclo, no boom das taxas baixas e no bust das taxas altas. Quem paga a conta desse vai e vem? O indiano comum, que compra arroz mais caro, gasolina mais cara, remédio mais caro, e escuta pelo rádio que o RBI está "combatendo pressões inflacionárias". Não está combatendo. Está limpando a sujeira que ele próprio espalhou pelo tapete da sala.

Existe uma ilusão persistente, cultivada por décadas de propaganda tecnocrática, de que planejadores centrais possuem alguma sabedoria misteriosa capaz de calibrar a quantidade certa de moeda para trezentos milhões de agentes tomando decisões simultâneas em setenta setores diferentes. Não possuem. Nenhum comitê, por mais doutores que reúna, tem acesso ao conhecimento disperso entre padeiros, exportadores de aço, agricultores de arroz e importadores de semicondutores. Cada intervenção monetária é um chute no escuro com o dinheiro dos outros, e cada correção de rota é a admissão silenciosa de que o chute anterior errou o alvo.

O aspecto mais grotesco dessa liturgia é o vocabulário. Drenar liquidez. Ajustar a curva. Ancorar expectativas. Palavras assépticas, higienizadas, próprias para conversa entre iniciados no ar-condicionado do banco central. Por trás delas, o fato bruto: alguém decidiu quanto dinheiro deveria existir no bolso do próximo, errou, e agora recolhe. Se um comerciante fizesse a mesma coisa com estoque, chamariam de fraude. Quando o banco central faz, chamam de política monetária heterodoxa e convidam o presidente da instituição para dar palestra em Davos.

A Índia é apenas o capítulo desta semana. Amanhã será o Brasil enxugando reservas compulsórias, depois de amanhã o BCE recomprando bônus que emitiu para segurar governo perdulário, na quinta-feira o Federal Reserve invertendo o balanço que inflou por três anos. É sempre o mesmo filme, com trilha sonora de econometria e figurino de gravata cinza. Enquanto o público continuar aplaudindo a competência dos bombeiros incendiários, o incêndio continuará sendo licitado como serviço essencial.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.