A RentGuarantor anunciou nesta semana acordos com duas operadoras britânicas de build-to-rent, aquele modelo em que prédios inteiros são erguidos com o propósito único de nunca serem vendidos ao morador. A empresa entra como avalista digital, cobrando taxa para garantir ao proprietário que o inquilino não vai calotear. Vendem como inovação fintech, como solução elegante para o jovem que não consegue arranjar fiador. E de fato resolve um problema imediato. O que ninguém quer discutir é por que esse problema existe e a quem interessa que ele nunca seja resolvido de verdade.
Olha, o Reino Unido tinha uma taxa de proprietários entre jovens que era orgulho nacional. Nos anos oitenta, mais de metade dos britânicos abaixo dos trinta e cinco anos possuía a casa em que morava. Hoje esse número desabou para pouco mais de um quarto. Não foi o mercado que fez isso sozinho. Foi política monetária frouxa inflando preço de ativo, foi restrição urbanística travando construção nova, foi imposto pesado sobre transação, foi regulação que tornou aluguel de curto prazo mais lucrativo que venda. O jovem britânico não escolheu virar inquilino perpétuo. Foi empurrado para essa condição por décadas de intervenção que enriqueceu quem já tinha imóvel e sufocou quem queria comprar o primeiro.
O build-to-rent é a consequência lógica desse arranjo. Fundos institucionais, muitos deles com dinheiro barato saído das torneiras dos bancos centrais, compram terreno, erguem torre e alugam apartamento por apartamento em contratos que se renovam para sempre. O inquilino paga, paga bem, e no fim de vinte anos não tem nada. O senhorio, que agora é uma gestora de ativos em Londres ou Cingapura, acumulou o patrimônio que antes teria sido do morador. Chamam isso de democratização do acesso à moradia. Me diz uma coisa, desde quando pagar aluguel a vida inteira para um fundo é mais democrático do que ter escritura no próprio nome?
Entra a RentGuarantor. A empresa não é vilã, é sintoma. Existe porque o sistema criou uma classe enorme de pessoas que ganham o suficiente para pagar aluguel caríssimo mas não têm fiador, não têm família com imóvel para dar em garantia, não têm o colchão que gerações anteriores tinham. A fiadora digital cobra para preencher esse vácuo, e o mercado aplaude a eficiência. Só que cada taxa cobrada é uma camada nova de custo empilhada sobre o mesmo inquilino que já paga aluguel inflacionado por escassez artificial. É o pedágio da servidão moderna, vendido como conveniência.
Siga o dinheiro e verá o desenho completo. O banco central mantém juro real baixo por uma década, inflando preço de imóvel. O governo aperta zoneamento e cria escassez. Fundos institucionais, únicos com acesso ao crédito farto, compram tudo. O jovem é expulso da propriedade e empurrado para o aluguel permanente. Surgem então as fintechs de fiança, as plataformas de gestão, as seguradoras de inadimplência, cada uma extraindo sua fatia. No fim da cadeia, o inquilino trabalha para pagar aluguel a um fundo, taxa a uma fiadora, seguro a uma seguradora, e comissão a uma plataforma. Nunca sobra nada para acumular. Não é bug do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar.
A parte mais sombria é cultural. Quando uma geração inteira aceita que jamais será dona da própria casa, muda a relação dela com o país, com o bairro, com o futuro. Quem aluga não planta árvore, não briga por escola de esquina, não fiscaliza prefeitura, porque amanhã pode estar em outro CEP. A propriedade privada nunca foi só economia. Sempre foi âncora, foi enraizamento, foi o mecanismo pelo qual o cidadão comum se torna partícipe da civilização em vez de hóspede dela. Destruir o acesso à propriedade é destruir devagar o próprio tecido do que faz um povo ser povo, e o Reino Unido descobrirá isso quando já não puder mais reverter.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.