Circula pelas redes uma expressão aritmética que deveria caber tranquilamente na cabeça de uma criança de dez anos, e no entanto derruba adultos formados, concursados, gente que assina relatório e vota em orçamento. A conta é 8 + 8 × 8 − 8 ÷ 8. O resultado correto, para quem ainda lembra que existe uma hierarquia entre as operações, é 71. Multiplica-se primeiro, divide-se em seguida, soma-se e subtrai-se por último. Não há mistério, não há polêmica, não há duas interpretações legítimas. Há apenas a regra, seca, indiferente aos sentimentos de quem a ignora. E, no entanto, milhões erram, discutem, empatam, ofendem-se com a resposta.

O fenômeno seria cômico se não fosse a assinatura de uma tragédia orçamentária. O Brasil torra, ano após ano, centenas de bilhões de reais em educação pública, dinheiro tirado à força do bolso do trabalhador via imposto sobre o pão, sobre a conta de luz, sobre o combustível que ele coloca no carro para ir justamente ao trabalho que financia a farra. Em troca desse confisco monumental, entrega-se ao contribuinte um sistema em que o aluno chega ao ensino médio sem saber que multiplicação vem antes de adição. Alguém está sendo pago, e muito bem pago, para produzir essa ignorância industrial. Vale a pena perguntar quem.

Perguntar é fácil, a resposta está diante de todos. Sindicatos que negociam salários e piso sem nunca aceitar avaliação de desempenho, secretarias infladas de cargos comissionados que jamais viram uma sala de aula, editoras alimentadas por licitações que enfiam livros didáticos recheados de militância pedagógica onde deveria haver tabuada, universidades públicas que formam professores em cursos que ensinam a desconstruir a matemática como opressão colonial em vez de ensiná-la. A cada aluno que sai analfabeto funcional, há uma folha de pagamento que sai gorda. A conta 8 + 8 × 8 − 8 ÷ 8 é o recibo dessa transação. O erro do aluno é o lucro do sistema.

Houve tempo, e não faz tanto tempo assim, em que criança de escola pública decorava tabuada aos gritos, recitava capitais, lia clássicos, fazia contas de cabeça no armazém do bairro para conferir o troco do pai. Não era paraíso, mas era escola. Depois vieram os iluminados que decidiram que rigor era violência, que erro era construção subjetiva, que corrigir a resposta era autoritário. Trocaram a lousa pela roda de conversa, o silogismo pela dinâmica de grupo, a régua pelo diário de bordo afetivo. O resultado está aí, numa conta de segunda série que trava o país inteiro num debate de boteco sobre se o certo é 71, 8 ou vinte e poucos.

O mais revelador é a reação típica do errante. Confrontado com o resultado correto, ele raramente admite o engano. Argumenta que a expressão está mal formulada, que faltam parênteses, que a matemática mudou, que na escola dele ensinaram diferente, que cada um tem sua verdade. Essa fuga é o retrato acabado de uma cultura que aprendeu a tratar fatos como opiniões e opiniões como direitos adquiridos. Multiplicação tem prioridade sobre adição porque a estrutura da operação exige, não porque um professor mal-humorado decidiu no século passado. As coisas são o que são, independentemente do que a autoestima do aluno gostaria que fossem. Confundir o mapa com o território é o esporte nacional, e a fatura chega travestida de PIB medíocre, produtividade estagnada, engenheiro que não sabe integrar.

Uma sociedade que não domina a ordem das operações não domina coisa nenhuma. Não entende juro composto, então assina financiamento predatório. Não entende inflação, então aplaude quem imprime dinheiro para pagar propina eleitoral. Não entende porcentagem, então acha que aumento de imposto atinge só o rico. Não entende estatística, então engole cada manchete falseada como verdade revelada. A ignorância aritmética não é acidente pedagógico, é infraestrutura política. Governo grande depende de povo que não sabe fazer conta, porque povo que sabe fazer conta descobre para onde vai o próprio dinheiro. A pegadinha viral, no fundo, é um espelho, e o país recusa olhar.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.