A notícia vem embrulhada em papel de presente: a Revolut, queridinha da imprensa econômica europeia, conseguiu autorização do órgão regulador colombiano para operar como banco a partir de 2027. Traduzindo do economês para o português: uma empresa que se vende como alternativa ao sistema bancário tradicional precisou de dois anos batendo continência para o banco central de Bogotá para ter o direito de existir. E o mercado aplaude. Aplaude porque foi treinado a confundir permissão com conquista, e alvará com mérito.
Olha, a promessa original das fintechs era romper o cartel bancário, aquele arranjo cômodo em que meia dúzia de instituições cobra tarifa de manutenção para guardar dinheiro que ninguém pediu para guardar. O que aconteceu na prática? As fintechs cresceram, viraram grandes, e no momento em que se aproximam do tamanho dos incumbentes, correm para dentro da mesma jaula regulatória que juravam derrubar. Não é acidente. É desenho. O regulador não quer competição de verdade; quer competidores domesticados que paguem taxa de fiscalização, cumpram exigência de capital mínimo e mandem relatório trimestral com o mesmo formato dos velhos bancos que supostamente vieram substituir.
E aqui entra a parte que ninguém escreve nas manchetes. Cada licença bancária concedida na América Latina é uma barreira de entrada erguida contra o próximo concorrente. A Revolut de 2019, aquela garagem sofisticada de Londres, jamais teria condição de cumprir os requisitos que a Revolut de 2026 cumpriu para entrar na Colômbia. O sistema é fechado por dentro: quem entrou antes fecha a porta para quem vem depois, e o regulador é o porteiro que ganha gorjeta dos dois lados. Chamam isso de estabilidade financeira. O nome correto é reserva de mercado com carimbo oficial.
Repare no timing. A Colômbia atravessa um governo de esquerda que precisa desesperadamente de investimento estrangeiro para maquiar as contas fiscais, e nada mais fotogênico do que anunciar a chegada de uma fintech europeia badalada. O regulador, que nos discursos oficiais é ferozmente independente, na prática dança conforme a música que o Palácio de Nariño toca. Concessão de licença não é ato técnico; é ato político vestido de terno técnico. Se fosse técnico, sairia em três meses. Sai em dois anos porque cada mês é uma barganha, cada exigência é um pedágio, cada auditoria é uma oportunidade de estender o guarda-chuva estatal sobre mais uma empresa privada.
E o consumidor colombiano, protagonista teórico dessa história toda? Vai ganhar em 2027 acesso a um aplicativo bonito, câmbio um pouco mais barato e cartão colorido. Vai perder, sem saber, a chance de ter tido dez concorrentes menores brigando por sua conta em vez de mais um gigante regulado repetindo o modelo dos gigantes que já existem. O que se vê é o lançamento glamouroso. O que não se vê são as dezenas de startups locais que nunca vão conseguir a mesma licença porque não têm capital para atravessar o labirinto burocrático que a Revolut atravessou. A conta dessa exclusão sai do bolso de todo mundo, diluída em tarifas que ninguém percebe.
No fim, o que sobra é a velha lição que a América Latina insiste em não aprender: quando o Estado decide quem pode ser banco, o resultado não é sistema financeiro mais seguro, é sistema financeiro mais capturado. A Revolut chega à Colômbia não como disruptora, mas como sócia júnior de um arranjo que já existia antes dela. Inovação real seria não precisar de licença nenhuma. O resto é teatro de fantasia com trilha sonora de banco central.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.