Uma fotografia, dessas que valem processos inteiros, circulou neste sábado e escancarou o que a solenidade dos gabinetes tenta esconder atrás de togas e discursos institucionais. O procurador-geral da República aparece sorridente, taça na mão ou quase, ao lado do dono do Banco Master, num evento em Londres. Não numa audiência, não num inquérito, não numa cerimônia acadêmica sobre lavagem de dinheiro. Num salão da elite financeira, do outro lado do Atlântico, onde o brasileiro médio jamais pisará nem para trocar de avião. E o senador que hoje disputa o Planalto pelo PL sintetizou a cena com a única frase que ela merece: estão rindo da cara do povo sofrido.
Convém não se distrair com o teatro moral em torno da foto e olhar para o que ela realmente documenta. O chefe do Ministério Público Federal, o homem que assina denúncias, que tranca ou libera investigações, que dita o ritmo processual de meio país, foi flagrado em posição de intimidade social com um banqueiro cujo nome ronda o noticiário há meses. Não é escândalo por ser proibido. É escândalo por ser exatamente aquilo que a arquitetura republicana finge combater ao criar cargos vitalícios, foros privilegiados e aposentadorias imperiais. A promessa era neutralidade. A entrega é canapé compartilhado.
Siga o dinheiro e a névoa se dissipa. Um banco que capta a juros de risco, que emite títulos com rentabilidades absurdas, que precisa do sistema financeiro nacional funcionando a seu favor, não paga passagem de primeira classe a autoridade nenhuma por gentileza. Paga porque proximidade rende, porque telefone atendido vale mais que balancete, porque um sorriso em Londres é apólice de seguro contra denúncia em Brasília. E o brasileiro que trabalha doze horas para pagar imposto sobre a conta de luz é o resenheiro involuntário dessa festa: banca o Estado que banca o procurador que banca a fotografia com o banqueiro que banca, no fim, tudo com dinheiro que saiu do bolso alheio via garantia implícita do Tesouro.
Chame isto de coincidência e você terá de acreditar também que a nobreza francesa do século dezoito jantava com os banqueiros de Paris por pura afinidade cultural, e que dessas amizades desinteressadas jamais resultou privilégio algum. A história tem o costume desagradável de se repetir, e sempre no mesmo formato: uma casta togada que se autodeclara acima do povo, uma casta financeira que compra proximidade, e uma massa contribuinte convidada apenas para a parte da conta. Não é preciso teoria conspiratória para enxergar o desenho. Basta ler a legenda da foto.
O mais revoltante não é sequer o encontro, é a naturalidade com que ele acontece. Ninguém se escondeu, ninguém disfarçou, ninguém achou que a imagem pudesse ferir minimamente o decoro do cargo, porque o decoro do cargo, no Brasil de hoje, virou peça de museu que só é acionada contra adversário político. Quando a togada aparece com o banqueiro certo, é networking republicano. Quando o cidadão comum questiona, é ataque às instituições. É essa inversão que corrói qualquer resto de legitimidade e transforma o Ministério Público num clube fechado com sotaque britânico e conta bancária internacional.
A pergunta que fica não é se haverá explicação oficial, sempre há, redigida em jargão indecifrável e concluída com a fórmula mágica de que nada de irregular ocorreu. A pergunta é quem paga essa peça de teatro e quem lucra com ela. Paga quem trabalha, paga quem produz, paga quem não tem foro nem passagem nem convite. Lucra quem tem toga, quem tem banco e quem tem acesso. E enquanto essa equação não for invertida, cada foto nova será apenas mais uma edição da mesma revista de sociedade, aquela em que o povo sofrido aparece só na página de classificados, pagando o anúncio.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.