O Risco Brasil caiu para 112 pontos neste sábado, e a claque de sempre já sacou as cornetas para anunciar o milagre da multiplicação da confiança. O CDS de cinco anos, essa espécie de termômetro que mede quanto os credores internacionais cobram para segurar o mico da nossa dívida soberana, atingiu o menor nível do terceiro mandato do atual ocupante do Planalto. Aleluia, irmãos. Só que a mesma reportagem, num detalhe enfiado no rodapé como quem esconde carta marcada, informa que o piso sob o governo anterior foi de 93 pontos. Ou seja, o Brasil ainda paga vinte pontos a mais de prêmio de risco do que pagava há poucos anos, e isso é vendido como conquista. É o equivalente a comemorar que o ladrão hoje só levou o relógio, quando ontem levava o relógio e a carteira.

Convém entender o que essa sopa de letrinhas realmente significa antes de aplaudir de pé. O CDS é o seguro que o investidor estrangeiro compra para se proteger caso o Tesouro brasileiro decida honrar a tradição bolivariana e dar um calote elegante. Quanto maior o número, mais o credor desconfia. Cair de 300 para 112 é bom? É. Mas o essencial não está no movimento recente, e sim na pergunta que ninguém quer fazer em voz alta: por que precisamos comprar seguro contra nós mesmos? Um país sério não tem CDS relevante, do mesmo modo que ninguém contrata seguro contra o vizinho que jamais invadiu sua casa. O prêmio existe justamente porque o histórico é de invasão recorrente, de tomada à força do bolso alheio, seja por confisco direto, seja pela via oblíqua e mais covarde da inflação.

Sigamos o dinheiro, que é o único caminho que não mente. Quando o risco cai, o governo se financia mais barato, é verdade. Mas quem embolsa o ganho imediato dessa queda são os detentores de títulos públicos, aquela casta seleta de bancos, fundos e grandes gestoras que carrega bilhões em papéis do Tesouro na carteira. Cada ponto que o CDS recua se traduz em ganho de capital instantâneo para quem já estava sentado na mesa. O trabalhador que ralou a semana inteira e recebe seu salário corroído não vê um centavo dessa festa. Ele é o financiador silencioso da orgia, o boi de piranha que garante que a boiada mais nobre atravesse o rio seco. E ainda paga imposto sobre o próprio salário para custear os juros que remuneram esses mesmos títulos. É a alquimia perfeita: o pobre financia o rico, e chamam isso de política fiscal responsável.

Há ainda o detalhe pitoresco do calendário. A queda ocorre num contexto internacional de dólar fraco, juros americanos em queda esperada e liquidez global voltando a inundar mercados emergentes. Todo o bloco latino se beneficiou nas últimas semanas, e nem por isso a Colômbia ou o Chile saíram anunciando obras do gênio de seus governantes. Aqui, no entanto, o palanque é montado em minutos. Atribuir ao Planalto o mérito de uma maré global é o mesmo truque do galo que canta e acha que fez o sol nascer. A lógica é implacável: se a causa da queda fosse doméstica, o número não estaria correlacionado ponto a ponto com o índice dos pares emergentes. Está. Portanto a causa é externa. Portanto a comemoração é fraude retórica.

Enquanto isso, a dívida pública real, aquela que ninguém quer olhar de frente, continua sua marcha triunfal rumo aos oitenta e tantos por cento do PIB, com déficits primários que se sucedem como capítulos de novela mexicana. O truque de curto prazo é conhecido: emite-se mais papel, promete-se ajuste para depois das próximas eleições, empurra-se o problema para o mandato do sucessor e, quando o sucessor chegar, culpa-se o antecessor. Esse carrossel gira há décadas, e cada volta cobra seu pedágio na forma de imposto novo, tarifa nova, contribuição nova, sempre com nome bonito e finalidade nobre. O CDS cair hoje não muda nada disso. Apenas dá fôlego para que a farra continue mais um trimestre, mais um semestre, até que alguém, lá na frente, tenha que pagar a conta que se está acumulando agora com juros compostos.

A pergunta que fica, e que os arautos do otimismo oficial jamais responderão, é simples e brutal. Se um país precisa festejar quando o mercado internacional aceita cobrar apenas 1,12% ao ano de seguro contra seu próprio calote, e ainda assim segue vinte por cento mais caro que o próprio patamar recente, do que exatamente estamos falando quando falamos em confiança? Confiança de verdade não se mede em pontos-base flutuantes, se mede na capacidade do cidadão comum de guardar sua poupança sem ver o poder de compra derreter, de comprar um imóvel sem financiar por trinta anos, de deixar herança para os filhos sem que o Leão coma metade no caminho. Nada disso está no CDS. Nada disso melhorou. E é por isso que a festa é dos mesmos de sempre, na mesa dos mesmos de sempre, com a conta indo, como sempre, para o mesmo endereço.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.