A notícia chega embrulhada em papel de presente. A Rocket Lab, aquela empresa que há poucos anos ainda era vista como aposta secundária no mercado de foguetes, acabou de fechar uma captação de quase dois bilhões de dólares para comprar a Iridium, operadora de satélites com constelação global e contratos gordos com o Pentágono. O anúncio veio com o vocabulário de sempre, sinergia, escala, integração vertical, dominância orbital, e o mercado reagiu como reage quando cheira consolidação, aplaudindo em pé. Só que aplauso de Wall Street raramente é sinônimo de prosperidade real, e essa operação merece ser destrinchada com calma, porque o que se vê é bonito e o que não se vê é onde mora o problema.

Comecemos pelo óbvio que ninguém quer olhar. Uma empresa não gera dois bilhões de dólares em caixa da noite para o dia vendendo foguetinho e serviço de lançamento. Esse dinheiro veio de emissão de dívida e de novas ações, ou seja, da mesma fonte que irriga praticamente todo o setor de tecnologia americano há mais de uma década, a torneira aberta do crédito barato que o banco central abriu depois de 2008 e nunca teve coragem real de fechar. Cada vez que os juros ameaçam voltar ao patamar histórico, o setor inteiro rilha os dentes, porque foi construído sobre uma base que só se sustenta enquanto o dinheiro for artificialmente farto. Aquisição bilionária financiada por crédito expandido não é sinal de vigor empresarial, é sintoma de que a poupança real da sociedade foi substituída por promessa de pagamento futuro que alguém, em algum momento, vai ter que honrar ou desonrar.

Siga a trilha do dinheiro e o quadro fica ainda mais interessante. A Iridium não é uma empresa qualquer, é fornecedora estratégica de comunicações para o Departamento de Defesa, para a marinha americana, para operações militares em regiões onde a internet comum não chega. Ou seja, o cliente principal do ativo que a Rocket Lab acaba de comprar é o próprio governo dos Estados Unidos, financiado por imposto arrancado do contribuinte americano. Traduzindo para o vernáculo, um investidor privado toma dinheiro emprestado no mercado, usa esse dinheiro para comprar uma empresa cuja receita depende do orçamento militar, e o retorno virá do bolso do pagador de imposto via contratos plurianuais que ninguém vai auditar linha por linha. Isso não é capitalismo de mercado, isso é capitalismo de compadrio com verniz de foguete.

Há ainda o problema da concentração, que os mesmos comentaristas que xingam monopólio quando é padaria de bairro celebram como estratégia visionária quando é setor espacial. A lógica do burocrata regulador é tão previsível quanto o clima em Brasília, ele deixa consolidar tudo em três ou quatro nomes, entrega o setor de bandeja para um oligopólio blindado por contrato governamental, e depois vai à imprensa dizer que precisa de mais regulação para proteger o consumidor. O consumidor, no caso, é o mesmo cidadão que pagou a farra via imposto, vai pagar a consolidação via preços mais altos, e ainda vai ouvir do intelectual bem pago que isso é progresso tecnológico. Progresso genuíno não precisa de subsídio disfarçado nem de barreira regulatória para florescer, ele se sustenta porque alguém, em algum ponto da cadeia, está entregando valor real para outro alguém disposto a pagar com dinheiro próprio.

Não me entenda mal, a expansão da atividade espacial privada é uma das poucas coisas genuinamente boas que o século ofereceu, tirar o monopólio da NASA e permitir que empresas compitam pelo espaço é vitória civilizacional. O problema não é a Rocket Lab existir nem crescer, o problema é o pano de fundo em que essa aquisição acontece, com dinheiro barato produzido por decreto, cliente cativo pago com imposto, e uma bolsa que trata dívida como se fosse riqueza. Quando o ciclo virar, e ele sempre vira, veremos quantas dessas fusões grandiloquentes eram estratégia real e quantas eram apenas empresas grandes comprando empresas maiores enquanto o crédito ainda estava barato o bastante para disfarçar o buraco.

A conta chega. Sempre chega. Fica apenas a pergunta de quem vai pagá-la desta vez, e a resposta, como de costume, é a mesma de sempre, aquele sujeito anônimo que trabalha, poupa, paga imposto e nunca é convidado para a festa do anúncio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.