O RTW Biotech Opportunities reportou valor patrimonial líquido de US$ 2,92 por ação em agosto, número que rodou nos terminais como se fosse dado meteorológico. Fundo fechado, listado em Londres, carteira recheada de empresas de biotecnologia em estágios variados de queima de caixa, e a métrica é apresentada ao investidor como fotografia objetiva de patrimônio. Só que patrimônio em biotech é ficção contábil sofisticada: o ativo vale o que o próximo comunicado da FDA disser que vale, e ninguém no comitê do fundo controla o carimbo do burocrata em Maryland.

Olha, a coisa é mais interessante do que o número seco sugere. Um NAV de US$ 2,92 significa que, se você liquidasse hoje toda a carteira ao preço de mercado das participações, sobraria isso por ação. Mas metade dessas participações é em empresas que ainda não venderam um único frasco de remédio, e a outra metade depende de aprovações que podem sair amanhã ou nunca. O gestor precifica o improvável e o investidor compra a precificação como se fosse ouro em barra. É a velha alquimia de transformar promessa regulatória em ativo negociável, e o mercado inteiro finge que não vê o truque.

Me diz uma coisa: por que uma indústria inteira aceita ser refém de uma agência federal que decide, com discricionariedade quase soberana, quem vive e quem quebra? Porque a mesma agência que atrasa aprovações também cria barreiras de entrada que garantem lucros de monopólio para quem consegue passar. É o capitalismo de compadrio em sua forma mais elegante: o Estado finge que protege o consumidor e, no processo, entrega reservas de mercado bilionárias para quem tem paciência e dinheiro para atravessar o labirinto. O RTW não está no negócio de curar doenças, está no negócio de apostar em quem sobreviverá à burocracia.

Siga o dinheiro e a foto fica nítida. O capital que entra nesses fundos vem de fundos de pensão, endowments universitários, gestores institucionais que precisam mostrar exposição a temas quentes. Biotecnologia é tema quente há duas décadas, e o Federal Reserve, com sua fábrica de liquidez barata, empurrou trilhões atrás de qualquer retorno que parecesse melhor que zero. Quando o custo do dinheiro é artificial, a alocação de capital também é. A gente vê o valor patrimonial subindo, o que a gente não vê é a montanha de capital que foi drenada de setores produtivos reais para financiar a próxima pílula que talvez nunca saia do laboratório.

E aqui entra a parte que ninguém quer discutir na Faria Lima nem na City. Um NAV é útil enquanto o mercado quiser acreditar nele. No dia em que o humor virar, e vira sempre, esses ativos ilíquidos são reprecificados de cima para baixo em questão de semanas. Já vimos o filme em 2000, em 2008, em 2022. A diferença é que a plateia insiste em achar que desta vez é diferente porque a molécula é nova, o algoritmo é sofisticado, o comitê científico é renomado. Nada disso protege contra a matemática elementar de que preço de ativo é opinião, e opinião muda.

O anúncio de US$ 2,92 por ação, no fim das contas, não é notícia sobre biotecnologia. É notícia sobre como um sistema financeiro dopado por décadas de dinheiro fácil aprendeu a monetizar a espera pela permissão do governo. Enquanto o carimbo demorar, o fundo cobra taxa de administração sobre a esperança. Quando o carimbo sair, meia dúzia enriquece e o resto descobre que estava financiando a loteria alheia. Chamam isso de mercado de capitais. Deveriam chamar pelo nome verdadeiro: cassino com credencial regulatória.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.