A cena se repete com a monotonia de um metrônomo macabro. Moscou aponta o dedo para Kiev, acusando-a de ter atingido instalações de combustível em Zaporizhzhia, e no mesmo fôlego despeja mais uma noite de bombardeios sobre Odesa. Os dois lados narram a mesma guerra em espelho invertido, cada um se apresentando como vítima santa de um vilão demoníaco, e o mundo, cansado, engole a encenação porque não sabe mais o que fazer com ela. Quatro anos disso, e a régua para medir quem começou o quê já derreteu na fornalha.
Olha, quem quiser entender guerra tem que parar de olhar para os mapas e começar a olhar para os balanços. Toda vez que um tanque queima na Ucrânia, alguém em Virginia, em Frankfurt ou em Xangai emite fatura. Munição gasta é munição a repor, e munição a repor é contrato multibilionário com prazo dilatado e cláusula de reajuste. O complexo industrial-militar dos dois lados do Atlântico, mais o oriental que ninguém audita, opera hoje no melhor momento comercial das últimas três décadas. Guerra virou modelo de assinatura, e o cliente é o contribuinte que nunca leu o contrato.
Me diz uma coisa, quem paga essa festa? O trabalhador ucraniano que fugiu para a Polônia e manda remessa de salário mínimo europeu para sustentar a família que ficou. O aposentado russo cujo rublo derrete enquanto o Kremlin imprime para financiar mobilização. O consumidor alemão que vê a conta de gás triplicar porque a matriz energética foi redesenhada no meio da tempestade. O contribuinte americano cujo Tesouro emite dívida para bancar pacotes de ajuda que passam direto pelo Pentágono e caem no caixa dos fornecedores certos. É sempre o mesmo padrão: o benefício é privatizado, o custo é socializado, e a moral fica com quem grita mais alto no noticiário.
Zaporizhzhia, aliás, não é depósito qualquer. É região que abriga a maior usina nuclear da Europa, um paiol energético que qualquer estrategista sóbrio manteria a quilômetros de qualquer explosivo. Quando os dois lados jogam fogo ao redor de reatores como se fosse artilharia de treinamento, não estão fazendo guerra, estão fazendo roleta russa com o continente inteiro na mesa. E o que se vê no jornal é a fumaça do depósito de combustível; o que não se vê é o cálculo cínico de quem aceita o risco de Chernobyl 2.0 porque a manchete rende mais alguns bilhões em orçamento de defesa aprovado sem debate.
Odesa apanhando de novo é o outro lado da mesma moeda. Porto do Mar Negro, corredor de grãos, ponto nevrálgico do comércio mundial de trigo e milho. Bombardear Odesa é bombardear o preço da farinha em Cairo, do pão em Túnis, da tortilla em Cidade do México. A guerra que parece localizada tem tentáculos em todos os supermercados do hemisfério pobre, e cada foguete que cai ali é imposto inflacionário que o consumidor de países que sequer sabem apontar a Ucrânia no mapa vai pagar sem saber por quê. Preço não é fenômeno abstrato; é sinal de escassez, e escassez fabricada a projéteis é a mais cara de todas.
A verdade é que essa guerra parou de ser sobre território há muito tempo. Virou ecossistema. Alimenta ONGs, think tanks, jornalistas de defesa, consultores de risco, fundos de hedge que apostam em rublo, corretores de energia, lobistas de armamento e a burocracia de Bruxelas que descobriu no conflito uma justificativa perpétua para expandir mandato e orçamento. Enquanto houver dinheiro circulando nesse arranjo, alguém em algum lugar vai ter interesse profissional em que os bombardeios continuem. E o cidadão comum, tanto lá quanto aqui, vai continuar sendo o único personagem dessa novela que ninguém pagou para atuar e ninguém consulta antes de escrever o próximo capítulo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.