A Rússia confirmou nesta semana que mantém conversas diplomáticas com a Turquia a respeito de um plano turco para reorganizar o escoamento de grãos pelo Mar Negro. Traduzindo do diplomatês para o português: dois governos estão decidindo, atrás de portas fechadas, quanto trigo vai chegar aos moinhos do Egito, da Indonésia, do norte da África e, indiretamente, ao pão que amanhã custará mais caro na padaria da esquina. E o pior é que ninguém que vai pagar essa conta foi consultado. Nunca é.
Vale lembrar o enredo. Em 2022 a ONU e a Turquia costuraram o famoso acordo dos grãos, uma daquelas soluções elegantes que a diplomacia adora exibir em coletiva. Durou o que durava. Em 2023 Moscou rasgou o pacto acusando o Ocidente de não cumprir a parte dele, e o mercado descobriu, mais uma vez, que preço de commodity agrícola não obedece a comunicado oficial, obedece à realidade dos porões dos navios. Cada rodada dessa dança turco-russa move futuros do trigo em Chicago, e quem ganha na volatilidade não é o produtor no interior do Paraná nem o consumidor no Cairo, é a mesa de operações que já estava posicionada antes do anúncio.
Repare no arranjo. A Turquia se coloca como mediadora indispensável, cobrando o pedágio geopolítico de ser dona do Bósforo. A Rússia usa o cereal como alavanca, transformando saca de trigo em munição política contra sanções europeias. O Ocidente finge indignação enquanto continua comprando fertilizante russo por triangulação. E o produtor ucraniano, cuja lavoura deveria estar no centro da história, virou peça de xadrez num tabuleiro onde três reis decidem o valor do peão. Toda vez que um governo se apresenta como o herói que vai garantir a segurança alimentar do planeta, é bom conferir quem está lucrando com a insegurança que ele mesmo ajudou a fabricar.
A parte que o noticiário econômico costuma varrer para baixo do tapete é a mais interessante. Quando o Kremlin gesticula sobre grãos, o dólar do trigo sobe, o real se mexe, o custo de ração animal se ajusta, e daqui a noventa dias o brasileiro paga mais caro no frango, no ovo, no pão francês. Não existe fronteira que blinde ninguém desse contágio, e a fantasia de que política externa é assunto de gente de terno em Genebra morre no caixa do supermercado. Todo controle sobre o fluxo de alimentos, seja por bloqueio militar, seja por acordo cartelizado entre governos, é uma forma de imposto invisível sobre quem come. E todo mundo come.
O padrão se repete faz um século. Grande produtor entra em guerra, governos aproveitam para reorganizar mercado, cria-se uma agência internacional para fiscalizar o que antes o próprio mercado fiscalizava sozinho via preço, e no fim da história a burocracia sobrevive à guerra e vira permanente. Foi assim com controle de câmbio no pós-guerra, foi assim com regulação de petróleo depois dos choques dos anos setenta, e será assim com o que quer que saia dessa mesa entre Ancara e Moscou. A guerra passa, o aparato de intervenção fica, e a próxima geração cresce achando que sempre foi natural que três chancelarias decidissem o preço da farinha.
A lição, se alguém quiser recolhê-la, é simples e desconfortável. Quanto mais governo se mete a organizar o abastecimento global, mais frágil o abastecimento fica, porque cada acordo depende do humor de um autocrata, de uma eleição, de uma retaliação. Um mercado agrícola verdadeiramente livre, com rotas comerciais múltiplas e sem cartéis diplomáticos disfarçados de mediação humanitária, absorveria uma guerra regional sem transformá-la em crise alimentar planetária. Mas mercado livre não dá manchete, não rende foto de aperto de mão em Istambul, e sobretudo não gera cargo para ninguém. Enquanto isso, o pão sobe, e a conta chega calada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.