Vladimir Putin manda o Ministério das Finanças reforçar o Fundo Nacional de Bem-Estar em até 11,93 bilhões de dólares no ano que vem, e o mundo deve aplaudir a prudência fiscal russa. Só que a matemática do cofre soberano só faz sentido quando você ignora tudo o que está fora dele. Do lado de fora, o rublo apanha, a inflação corrói salário real, o petróleo é vendido com desconto para chineses e indianos, e a maquinaria de guerra na Ucrânia consome dinheiro num ritmo que nenhum barril de Ural consegue repor. O fundo que engorda no papel é o mesmo que já foi saqueado nos últimos três anos para tapar o rombo orçamentário, e quem acompanha os números sabe que a parte líquida virou fração da parte contábil.

Existe uma diferença brutal entre riqueza real e riqueza declarada, e regimes que precisam declarar riqueza costumam ser os que menos possuem. Um país produtivo não precisa anunciar que vai depositar bilhões num cofre estatal, porque a riqueza está distribuída entre milhões de empresas, propriedades, poupanças e trocas voluntárias que ninguém precisa proclamar. Quando o soberano concentra tesouro, é porque desconfia do próprio povo, do próprio empresariado e da própria moeda. É o instinto do senhor feudal disfarçado de política macroeconômica moderna, e serve exatamente para o mesmo fim: bancar guerra, cortesão e repressão quando a colheita fracassa.

Siga o dinheiro e a farsa aparece inteira. O Fundo Nacional de Bem-Estar russo foi vendido lá atrás como poupança das gerações futuras, herança do petróleo caro, colchão para os dias ruins. Chegaram os dias ruins e o colchão virou combustível de tanque, salário de mercenário e cobertura de furo orçamentário. Agora Moscou promete recompor o que gastou, usando receita que ainda não arrecadou, num orçamento que já projeta déficit, num regime de sanções que estrangula acesso a mercados de capital. É contabilidade criativa com uniforme militar, o tipo de exercício que qualquer contador honesto reprovaria num balanço de padaria.

Há um ponto que os apologistas do Estado forte nunca querem admitir: fundo soberano é confissão de fracasso monetário, não prova de solidez. Um país que confia na própria moeda não precisa acumular dólar, euro, yuan e ouro num cofre para se sentir seguro. Acumula porque sabe que a moeda que imprime não vale a fé que exige. E quando esse cofre é gerido pelo mesmo governo que quebrou a moeda, que confiscou reservas estrangeiras alheias antes de ter as suas próprias confiscadas, que transformou a política monetária em arma de guerra, o depósito soberano vira apenas uma nova frente de risco político. O dinheiro está lá até o dia em que o próximo decreto diz que não está mais.

O que se vê é o anúncio triunfante do reforço do fundo. O que não se vê é o russo comum pagando gasolina mais cara, alimento mais caro, importado mais caro, para que o Kremlin possa continuar escrevendo relatórios de prosperidade fictícia enquanto sepulta uma geração num campo de batalha. É a lógica de sempre: o Estado se declara rico exatamente na proporção em que empobrece o cidadão. Cofre cheio, cidadão vazio, e um regime que confunde acumulação com produção segue tocando a orquestra enquanto o navio inclina.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.