A Rússia acordou no segundo dia da votação parlamentar denunciando ataques cibernéticos ao seu sistema eleitoral, e a coincidência é daquelas que fazem qualquer leitor atento levantar a sobrancelha. O regime que controla a comissão eleitoral, a imprensa, os tribunais e a contagem dos votos vem a público avisar que forças obscuras tentam interferir no processo. Ora, me diz uma coisa, quem tem monopólio absoluto sobre a apuração precisa mesmo de hackers para explicar o resultado, ou o anúncio é a apólice de seguro contra qualquer contestação que venha depois?

Existe uma técnica antiga em regimes que gostam de teatro eleitoral, e ela consiste em fabricar o vilão externo antes de mostrar o número final. Se a oposição reclamar, a resposta já está engatilhada, foi ataque estrangeiro. Se algum observador estranhar a votação recorde em regiões controladas, a resposta é a mesma, tentaram sabotar mas o povo resistiu. O ataque cibernético vira coringa retórico, serve para tudo, explica qualquer coisa, e o melhor, ninguém consegue auditar porque a evidência técnica está guardada nos servidores do próprio governo que denuncia o crime.

Olha, o problema não é a existência de ataques, ataques cibernéticos a infraestrutura crítica acontecem todos os dias em todos os países sérios do planeta. O problema é que uma eleição de verdade não precisa que o governo seja simultaneamente candidato, árbitro, contador de votos e investigador do crime contra o próprio pleito. Quando as quatro funções se concentram na mesma mão, o resultado é conhecido antes da urna abrir, e o comunicado sobre hackers é apenas a nota de rodapé que justifica a margem confortável do partido oficial.

Siga o dinheiro e siga o poder, que dá quase sempre no mesmo lugar. O parlamento russo aprova orçamento, aprova mobilização, aprova imposto, aprova a continuidade da guerra que já consumiu centenas de bilhões de rublos e um número de vidas que ninguém tem coragem de divulgar. Uma Duma dócil vale ouro para quem precisa financiar aventura militar sem prestar contas, e qualquer resultado que não seja dócil precisaria ser explicado. O ataque cibernético é a explicação pré-fabricada, embalada em papel celofane, entregue em domicílio para a imprensa estatal repetir em looping.

Vale lembrar que a mesma retórica do inimigo externo sabotando a soberania nacional já foi usada por todos os regimes autoritários do último século, de Berlim dos anos trinta às ditaduras latino-americanas dos anos setenta, passando por cada república popular que precisava justificar por que a economia planejada não entregava sapatos. O ataque de fora é o álibi permanente do fracasso interno, e a eleição controlada é a cerimônia que legitima o fracasso como vontade popular. Muda o figurino, muda o idioma, muda a bandeira, o roteiro é o mesmo.

O que se vê é a manchete sobre hackers estrangeiros ameaçando a democracia russa. O que não se vê é que a democracia russa foi enterrada muito antes de qualquer pacote de dados suspeito bater na porta da comissão eleitoral, e o teatro de agora existe justamente para fingir que ainda há algo a proteger. Quem controla a impressora, a urna e o telejornal não precisa de hacker para ganhar eleição, precisa de hacker para explicar por que ganhou tanto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.