A RWS saiu esta semana batendo no peito porque uma consultoria americana chamada Forrester a nomeou "líder" no relatório de serviços de localização. Traduzindo do corporativês para o português: uma empresa que vende tradução comprou (direta ou indiretamente, via participação no processo, via acesso pago aos analistas, via ecossistema de relacionamento) um selo que agora vai estampar em toda apresentação comercial pelos próximos dois anos. E os portais financeiros reproduzem o comunicado como se fosse dado de mercado, como se fosse fato jornalístico, como se algum consumidor final tivesse pedido opinião à Forrester sobre quem contratar para localizar seu software.

Olha, o modelo de negócio dessas consultorias é dos mais engenhosos que o capitalismo tardio inventou. Elas vendem o relatório para quem quer ler, vendem consultoria para quem quer aparecer bem no relatório, vendem workshops para quem quer entender o relatório, e vendem licenças de uso do selo para quem foi bem avaliado no relatório. É um moto-perpétuo de faturamento onde o produto é a própria reputação da consultoria, reputação essa que só se mantém enquanto ninguém pergunta em voz alta como o salsichão é fabricado.

Quer dizer, existe algo mais revelador do estado atual do jornalismo econômico do que ver um release corporativo virar manchete sem uma linha de contexto? Nenhum jornalista pergunta quanto a RWS gasta anualmente com a Forrester em serviços correlatos. Nenhum edítor questiona a metodologia proprietária que sempre inclui um "peso" para "visão estratégica" que, veja você, é justamente o campo onde as empresas que pagam pelo relacionamento saem melhor. É a mesma lógica do rating que dava nota AAA para hipoteca podre em 2007: quando o avaliado é quem paga a conta do avaliador, o resultado da avaliação já vem escrito antes da primeira planilha ser aberta.

E aqui é onde a coisa fica interessante para o observador atento. O mercado de localização movimenta bilhões porque toda multinacional precisa traduzir manual, software, campanha publicitária, contrato. É um serviço genuinamente útil, com valor real, entregue por gente competente. A RWS pode até ser boa mesmo, não é essa a questão. A questão é que a informação que chega ao mercado sobre quem é bom nesse setor não vem do consumidor satisfeito, não vem de auditoria independente, não vem de teste cego. Vem de uma consultoria que fatura vendendo posicionamento. É como se o Guia Michelin fosse pago pelos restaurantes premiados e mesmo assim continuasse sendo tratado como bíblia gastronômica.

O que se vê é o comunicado triunfal, o preço da ação subindo alguns tostões na semana, o CEO tuitando em inglês empresarial. O que não se vê é o pequeno concorrente que faz o mesmo trabalho por metade do preço mas não tem os quinhentos mil dólares por ano para aparecer no radar da Forrester. Não se vê o cliente corporativo que contrata pela referência do selo e paga 40% a mais pelo mesmo serviço. Não se vê que essas dinâmicas de credenciamento privado, aparentemente inofensivas, funcionam como barreira de entrada, protegendo os incumbentes, encarecendo o serviço final, sufocando a concorrência real que ocorreria se as decisões fossem tomadas com base em preço, qualidade e reputação genuína entre pares.

Me diz uma coisa: se o mercado é mesmo eficiente na alocação de informação, por que precisamos de tantos intermediários vendendo selos, medalhas, quadrantes mágicos, ondas e ranqueamentos proprietários? A resposta incômoda é que boa parte do que se chama de "inteligência de mercado" hoje é teatro caro montado para dar cobertura a decisões de compra que os executivos precisam justificar internamente. Ninguém foi demitido por contratar a empresa que a Forrester recomendou, e é exatamente disso que a Forrester vive. O resto é ruído de imprensa reproduzindo comunicado sem checar quem paga a conta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.