A cena é de um pitoresco quase cômico. Uma estatal elétrica que acumulou o equivalente ao PIB de uma nação inteira em dívida chega para dois de seus maiores clientes e pede, com cara séria, que paguem antecipadamente cinco anos de conta de luz. Dezenove bilhões de dólares na mesa, pra ontem, pra ajudar a KEPCO a fingir que ainda é solvente. Samsung e SK Hynix, que precisam da energia para tocar as fábricas de chips que sustentam metade da economia digital do planeta, olharam para a proposta e disseram não. E fizeram bem. Porque o que estava sendo oferecido não era um contrato, era um cheque em branco para cobrir a incompetência alheia.
Convém entender o tamanho do rombo antes de julgar a recusa. A KEPCO opera sob controle de preços do governo sul-coreano, que há anos impede reajustes tarifários compatíveis com o custo real da energia, especialmente depois do choque energético global. Traduzindo, o governo obrigou a empresa a vender eletricidade abaixo do custo por razões políticas, e agora que a conta chegou, quer que o setor privado banque a diferença. É a lógica clássica do controle de preços, aquela que sempre termina do mesmo jeito: prateleira vazia, fila na porta, ou, no caso da energia, uma estatal zumbi pedindo esmola aos próprios clientes.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais clara. Quem realmente ganhou com tarifa artificialmente baixa por uma década? Não foi o consumidor coreano no longo prazo, porque agora ele vai pagar duas vezes, na conta de luz futura e no imposto que socorrerá a estatal. Ganharam os políticos que compraram popularidade barata segurando reajuste, os sindicatos da estatal que preservaram salários gordos enquanto a empresa afundava, e os planejadores que apostaram todas as fichas numa matriz nuclear que o próprio governo depois resolveu desmontar por conveniência ideológica, para depois tentar remontar quando percebeu a tragédia. O prejuízo, esse sim, foi generosamente distribuído. E agora querem terceirizar o resto para quem trabalha.
Repare no que a proposta revela sobre a mentalidade do burocrata. Quando uma empresa privada quebra, ela quebra. Vai à falência, é reestruturada, os credores negociam, os ativos são vendidos, e a vida segue. Quando a estatal quebra, ela convoca os produtivos para uma reunião e apresenta uma fatura. A diferença não é técnica, é filosófica. O sujeito que administra dinheiro alheio, sem risco pessoal, sem consequência pelo erro, sempre acha que o próximo colete salva-vidas está no bolso de quem ainda está nadando. E fica genuinamente ofendido quando o nadador se recusa a entregá-lo.
O detalhe delicioso é que Samsung e SK Hynix não são exatamente empresinhas de bairro. São conglomerados que respondem por parcela decisiva das exportações sul-coreanas, empregam centenas de milhares, e sustentam com seus impostos boa parte da máquina que agora quer sangrá-las. Se elas travassem produção por falta de energia estável, o país mergulharia numa recessão do tipo que faz ministro perder cadeira e presidente perder mandato. O não delas, portanto, não é apenas comercial, é político no melhor sentido, uma lembrança de que existe limite para o quanto o Estado pode espremer sem quebrar a galinha dos ovos de ouro. Alguém precisava dizer, e disseram.
A moral da história é aquela que os manuais de economia insistem em ignorar por conveniência ideológica. Preço não é decreto, é informação. Quando o governo finge que pode congelar o preço de algo que custa X e vender por metade, a diferença não desaparece por milagre, ela vai se acumulando em algum balanço até estourar. E vai estourar. Sempre estoura. A KEPCO é só a versão coreana de um filme que já passou na Venezuela, na Argentina, no Brasil dos anos oitenta, em cada lugar onde alguém achou que planilha vence realidade. Quem paga a conta no fim é sempre o mesmo, o cidadão comum, seja como consumidor, contribuinte ou desempregado. E quando duas empresas privadas têm coragem de dizer que não vão pagar a conta desta vez, o mínimo que se pode fazer é aplaudir. Porque o próximo a bater na porta pode ser você.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.