Um governador publica um vídeo produzido por inteligência artificial em que o dono de um banco fechado pelo Banco Central aparece como DJ animando uma festa presidencial, ao som de uma musiquinha que denuncia o aumento da luz e da gasolina. A imprensa se debruça sobre a peça como se o escândalo estivesse na sátira, e não no fato retratado por ela. Curioso país este, onde a caricatura vira notícia e o retratado vira detalhe. O dedo aponta a lua e todo mundo discute a manicure do dedo.

Convém lembrar o roteiro real, aquele que a sátira apenas caricatura. Um banco quebra deixando um rombo bilionário, e o dono, em vez de responder pelas suas escolhas como qualquer padeiro responderia, aparece jantando com ministros, circulando em cerimônias oficiais, retratado pela ala palaciana como vítima de perseguição. A pergunta que ninguém faz nas colunas polidas é a mais simples: quem cobre o prejuízo? Os depositantes anônimos, os fornecedores esquecidos, os fundos garantidores alimentados por bancos que repassam o custo em tarifa, e no fim da cadeia, sempre no fim da cadeia, o cidadão que nunca pisou naquela festa. O barão da corte dança, o servo paga a orquestra.

Há algo de teatro barroco nessa combinação. O poder político precisa do poder financeiro para bancar suas aventuras eleitorais, e o poder financeiro precisa do poder político para transformar dívida privada em socorro público. É a mais antiga das simbioses, pintada com verniz de modernidade tecnológica e discurso de justiça social. Toda vez que um governo se apresenta como campeão dos pobres, convém olhar para o camarote e conferir quem está bebendo champanhe atrás da cortina. Não falha. A retórica da igualdade é o guardanapo com que os poderosos limpam o queixo depois do banquete.

A sátira produzida pela inteligência artificial acerta num ponto que a análise séria costuma tergiversar: luz mais cara, gasolina mais cara, tributos mais criativos, tarifas mais rebuscadas. Nada disso é acidente, nada disso é fatalidade internacional, nada disso é herança maldita. É escolha, é decreto, é caneta assinada em Brasília. Cada real a mais na conta de energia é um voto silencioso, obrigatório e retroativo, que ninguém depositou na urna mas todo mundo deposita na fatura. O confisco moderno não usa mais soldado à porta, usa boleto e código de barras.

O que assusta os defensores do arranjo não é a sátira ter sido feita, é ela ter funcionado. Um vídeo caricatural de trinta segundos comunicou, à massa que não lê parecer técnico, o que meses de investigação jornalística não conseguiram atravessar. E aí vem o coro previsível sobre desinformação, sobre riscos da inteligência artificial, sobre a necessidade de regulamentar a piada. Traduzindo do burocratês: precisamos calar quem ri da roupa do rei. A régua é sempre assimétrica, o dossiê contra o adversário é jornalismo investigativo, o meme contra o aliado é ameaça à democracia.

Fica a lição prosaica desse episódio patético e revelador. Enquanto se discute se o governador foi de bom gosto ou de mau gosto ao mandar fazer o vídeo, o banqueiro segue circulando, o rombo segue impago, a tarifa segue subindo e a conta segue chegando no seu nome. A sátira passa, o prejuízo fica. E quando o barulho da polêmica esfriar, sobrará o de sempre: alguém muito rico saiu ileso, alguém muito poderoso saiu fortalecido, e você, que não foi convidado para a festa, terminará lavando a louça. Ria enquanto pode; o riso ainda é um dos poucos impostos que o governo não conseguiu cobrar.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.