Ben Trenda desembarca na Scowtt com o título pomposo de Chief Revenue Officer, aquele cargo que virou moda no vale do silício e que traduzido para o português honesto significa: precisamos vender mais, precisamos vender rápido, e precisamos de alguém para tomar a bronca se não der certo. A empresa vende isso como reforço estratégico, sofisticação de governança, alinhamento com as melhores práticas. Quem já viu esse filme rodar duas ou três vezes sabe que a nomeação de um CRO raramente é gesto de força, é confissão de necessidade.

Olha, existe uma diferença abissal entre a companhia que cresce porque o produto se vende sozinho e a companhia que precisa de um executivo dedicado exclusivamente a espremer receita das pedras. A primeira contrata engenheiros, a segunda contrata vendedor de terno caro. E toda vez que o mercado aplaude o anúncio de um novo diretor comercial como se fosse descoberta de vacina, alguém deveria perguntar por que a receita não estava vindo antes por conta própria.

O que ninguém comenta nesses comunicados é o custo real da operação. Um CRO experiente não vem barato, traz consigo uma equipe de vendas que precisa ser paga, um pacote de opções que dilui o acionista antigo, metas agressivas que costumam ser cumpridas com desconto suicida no produto, e uma cultura de bater número trimestral que consome silenciosamente a saúde financeira de médio prazo. O emprego do novo executivo é visível, celebrado, fotografado. Os empregos que não serão criados porque o caixa vai para bônus de venda, esses ninguém conta.

Quer dizer, a lógica de contratar alguém para "impulsionar receita" pressupõe que a receita seja questão de vontade, de esforço, de gestão brilhante. Mas receita saudável vem de valor entregue ao cliente, e valor entregue não se decreta em reunião de diretoria. Quando a empresa precisa importar um mercenário de vendas, está admitindo que o crescimento orgânico secou, e o resto da história costuma envolver aquisições apressadas, contratos plurianuais com desconto agressivo e, lá na frente, uma revisão para baixo de expectativas que pega o pequeno investidor de calças curtas.

Me diz uma coisa, quantas vezes você viu essa coreografia se repetir? A empresa anuncia executivo estrela, ação sobe três por cento no dia, analistas de banco publicam relatórios entusiasmados, e dezoito meses depois o mesmo executivo pede demissão "por motivos pessoais" enquanto a companhia culpa o cenário macro pelos números que não vieram. O padrão é tão previsível que já deveria estar tatuado no manual do investidor prudente.

A Scowtt pode até estar certa na aposta, e Trenda pode ser exatamente o operador que faltava. Mas o mercado tem memória curta e o pequeno investidor tem esperança longa, e essa combinação historicamente enriquece apenas quem vende o sonho, nunca quem compra. Antes de aplaudir o comunicado, valeria olhar o balanço, o fluxo de caixa e a taxa de queima. Cargo bonito não paga dividendo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.