Donald Trump apareceu novamente com a cartilha do político em campanha eterna, garantindo que "sempre cumpre suas promessas" ao renovar o aceno de um cheque de cinco mil dólares por cabeça caso os republicanos vençam a próxima eleição. A embalagem é patriótica, o discurso é firme, o gesto tem cara de generosidade paternal. Só que dinheiro nenhum sai do bolso de quem promete. Sai do bolso do sujeito que acorda cedo, paga imposto, aguenta inflação e ainda tem que aplaudir o benfeitor que devolve com uma mão uma fração do que tirou com as duas.

A cena não é nova, é apenas mais bem produzida. Roma antiga tinha o pão e o circo, o imperador financiava a plebe com o butim das províncias e chamava aquilo de virtude cívica. A mecânica é a mesma, mudou o figurino. Quem promete cheque em ano eleitoral não está sendo generoso, está terceirizando a conta. E o mais engraçado é a plateia que aplaude sem perguntar de onde vem o dinheiro, como se existisse um cofre encantado no porão da Casa Branca cheio de moedas que ninguém teve que ganhar suando.

Quer dizer, os cinco mil dólares que aparecem na conta corrente vêm de algum lugar. Ou saem de imposto novo, ou saem de dívida futura, ou saem da impressora rodando, o que dá no mesmo, porque imprimir dinheiro é o imposto mais covarde de todos, aquele que rouba sem que a vítima entenda que foi roubada. O beneficiário sorri com o cheque na mão enquanto o preço do pão sobe, o aluguel dispara e o dólar que ele acabou de receber vale menos do que valia semana passada. A conta chega, sempre chega, só que disfarçada de fenômeno natural, como se inflação fosse chuva.

Me diz uma coisa, se um empresário comum oferecesse cinco mil dólares para cada eleitor votar num candidato, estaria preso antes do sol se pôr, e com razão. Quando o próprio candidato oferece a mesma coisa usando o dinheiro dos contribuintes, chama-se política pública, medida corajosa, aceno ao povo. A diferença moral entre as duas cenas é rigorosamente nenhuma, a diferença jurídica é apenas o carimbo do Tesouro. Compra de voto continua sendo compra de voto, mesmo quando o comprador usa o cartão da vítima para pagar a propina.

E há ainda o que ninguém quer ver, que é o outro lado da moeda. Cada dólar distribuído em cheque é um dólar que não foi investido, não foi poupado, não gerou emprego real, não construiu absolutamente nada. É consumo forçado, açúcar na veia da economia, energia falsa que some no dia seguinte deixando ressaca e mais dívida. O emprego que o cheque financia por três meses aparece nas manchetes, os empregos que morreram nas empresas sufocadas pelo imposto que pagou o cheque nunca aparecem em lugar nenhum, porque cadáver econômico não dá foto boa.

No fim, o espetáculo revela o que sempre foi, um homem que descobriu cedo que a democracia moderna virou leilão de dinheiro alheio, e que ganha quem promete mais do que os outros. Não importa a sigla, não importa a bandeira, o mecanismo é o mesmo em Brasília, Buenos Aires ou Washington. O político generoso com o suor dos outros é o personagem mais barato da história, e o eleitor que aplaude é o único que nunca percebe que está sendo pago com o próprio salário para agradecer ao ladrão.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.