A cena tem sabor de vaudeville. Um senador republicano, do mesmíssimo partido que hoje ocupa a Casa Branca, sobe ao microfone e aponta o dedo para a política de vacinação do governo Trump como responsável pela reaparição de mortes por sarampo em solo americano. Não foi um deputado democrata, não foi ativista de ONG, não foi âncora da CNN. Foi gente de dentro. E é exatamente isso que torna o episódio interessante, porque desnuda o teatro que a saúde pública virou nas últimas décadas nos dois lados do espectro.

Vamos ao que interessa. Sarampo é doença antiga, conhecida, com vacina eficaz há mais de meio século. Se ela voltou a matar, algo muito humano aconteceu no meio do caminho, e esse algo não é o vírus, que não mudou de humor. Mudou a confiança. E a confiança foi destruída, ironicamente, pelas mesmas autoridades sanitárias que agora rasgam vestes quando o cidadão comum decide, por conta própria, não obedecer. Depois de anos empurrando mandato compulsório de vacina experimental na garganta da população, demitindo médico que discordava, cancelando cientista que fazia pergunta incômoda, o establishment sanitário queimou seu próprio capital de credibilidade. Agora colhe o que plantou, e quer terceirizar a fatura para o vilão politicamente conveniente da vez.

Aqui é preciso enxergar o que ninguém quer olhar. Quando o Estado transforma escolha médica em bandeira ideológica, ele arruína dos dois lados. De um lado, produz o cidadão que aceita qualquer coisa desde que venha rotulada de oficial. Do outro lado, produz o cidadão que rejeita tudo, inclusive o que faz sentido, porque não confia mais em nada que venha carimbado por autoridade federal. A polarização vacinal não caiu do céu. Foi fabricada, cuidadosamente, por burocracia que confundiu ciência com decreto e por políticos que descobriram que medo dá voto.

Siga o dinheiro e a peça fica ainda mais clara. Bilhões de dólares em contratos de vacina, agências reguladoras com portas giratórias para a indústria farmacêutica, ONGs financiadas por fundações bilionárias empurrando pauta sanitária como se fosse consenso científico. O cidadão comum, que apenas quer decidir por seu filho com base em conversa franca com seu médico de confiança, virou peça sobrando no tabuleiro. Quando esse cidadão desconfia, chamam de ignorante. Quando morre, chamam de estatística politicamente útil.

O senador que acusa Trump não está errado por acusar, está errado por acusar pela metade. A política vacinal americana está quebrada, sim, mas não começou em janeiro deste ano, e não termina na Casa Branca atual. Ela é fruto de décadas de captura regulatória, de casamento incestuoso entre farmacêutica e Estado, de arrogância epidemiológica que trata o povo como gado a ser conduzido. Culpar o presidente da vez é confortável porque poupa todo mundo de olhar no espelho, inclusive o próprio senador, que votou em cada orçamento que engordou essa máquina.

A verdade incômoda é esta. Não se restaura confiança pública com nova campanha publicitária, com novo czar sanitário, com nova lei de mandato obrigatório. Restaura-se confiança devolvendo a decisão para onde ela sempre deveria ter ficado, ou seja, entre o paciente, sua família e seu médico, sem coação estatal, sem chantagem de emprego, sem passaporte sanitário. Enquanto os políticos preferirem o palanque à humildade, e enquanto a imprensa preferir a manchete à verdade, o sarampo será apenas o pretexto do mês. No próximo mês vem outra doença, outro culpado, outro teatro. E o cidadão continua pagando, com o bolso e, agora, com filhos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.