A agência de risco S&P Global rebaixou a perspectiva da Telus Corporation, uma das maiores operadoras de telecomunicações do Canadá, citando o motivo mais previsível do manual corporativo contemporâneo: alavancagem crescente. Traduzindo do economês para o português dos mortais, a empresa se endividou mais do que o balanço aguenta e agora quem empresta dinheiro está começando a olhar de lado. A perspectiva negativa não é sentença de morte, é aviso de rua sem saída. E o aviso vem depois de anos de decisões que qualquer pai de família com dois neurônios em fricção reconheceria como irresponsáveis.
Olha, a Telus não é uma startup atrapalhada tentando encontrar seu lugar no mundo. É uma incumbente, opera em um setor regulado, com clientes cativos e fluxo de caixa razoavelmente previsível. Como é que uma empresa dessas chega ao ponto de assustar agência de rating? A resposta está no combo que virou padrão do capitalismo financeirizado das últimas duas décadas: dividendos generosos para agradar o mercado, recompra de ações para inflar o preço do papel, expansão para setores adjacentes onde ninguém sabe direito o que está fazendo, tudo isso bancado com dinheiro emprestado a juros que pareciam eternos. Pareciam. Aí o Banco Central do Canadá lembrou que juros existem, o custo da dívida triplicou, e o castelo começou a rachar.
O detalhe que ninguém quer discutir é o papel do dinheiro barato nessa festa. Durante mais de uma década, os bancos centrais do mundo inteiro mantiveram taxas artificialmente rasteiras, criando a ilusão de que capital não custava nada. Empresas maduras, que deveriam operar com prudência de matriarca cuidando de bisneto, foram seduzidas a se comportar como adolescente com cartão de crédito da mãe. Recomprar ações, pagar dividendos maiores que o lucro, alavancar tudo para turbinar o retorno sobre o patrimônio, foi essa a fórmula. Quando o dinheiro é grátis, todo mundo vira gênio da matemática financeira. Quando o dinheiro volta a ter preço, aparece quem estava nadando pelado.
Seguindo o rastro do dinheiro, a coisa fica ainda mais interessante. Quem se beneficiou de toda essa alavancagem nos anos gordos? Executivos com pacotes atrelados ao preço da ação, acionistas que receberam dividendos polpudos, e uma engrenagem inteira de bancos de investimento faturando com cada emissão de dívida nova. Quem paga a conta agora que o vento virou? O consumidor canadense, que vai ver a tarifa subir para engordar a margem operacional; o funcionário, que vai ser demitido em nome da eficiência prometida ao rating; e no limite, se a coisa apertar de verdade, o próprio contribuinte, porque telecom é infraestrutura crítica e ninguém deixa quebrar de vez.
E aqui mora a hipocrisia estrutural do capitalismo de compadrio moderno: os ganhos são privatizados nos bons tempos, distribuídos entre executivos e grandes acionistas em forma de bônus, dividendos e recompras; os riscos são socializados nos maus tempos, porque a empresa é grande demais, essencial demais, sistêmica demais para simplesmente pagar o preço de suas próprias decisões. É o mesmo roteiro dos bancos em 2008, das companhias aéreas em 2020, e agora começa a ensaiar sua estreia no setor de telecomunicações. Ninguém aprende porque ninguém quer aprender, o incentivo é justamente não aprender.
A lição que a Telus oferece de graça é que balanço não mente para sempre. Você pode maquiar por um trimestre, dois, três, uma década inteira se o juro colaborar; mas o dia da conta chega, sempre chega, e quando chega descobre que quem passou o tempo todo bebendo champanhe alheia não tem como pagar. O rebaixamento da perspectiva é apenas o garçom se aproximando com a comanda. O rebaixamento propriamente dito, se vier, será a hora de descobrir quem tem dinheiro no bolso e quem só tinha promessa de lucro futuro. Empresa séria não se endivida para agradar planilha de analista; empresa séria se endivida para investir no que produz caixa. O resto é encenação, e toda encenação um dia acaba.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.