A cena é digna de comédia amarga. A Jamaica ainda conta os mortos, os escombros e os postes derrubados por um furacão que arrasou a ilha, e a resposta da agência de classificação de risco veio pontualmente, com aquele ar solene de quem entrega diploma. Ratings mantidos em BB/B. Tudo em ordem, senhores investidores. O país está de pé, ou pelo menos a parte do país que interessa às planilhas de Manhattan está de pé.

É preciso entender o que essas três letrinhas realmente significam, porque o público em geral engole a narrativa de que rating é termômetro objetivo da saúde econômica de uma nação. Não é. Rating soberano mede uma coisa só, com precisão de bisturi: a probabilidade de o governo continuar honrando o serviço da dívida externa. Ponto. Se a população está passando fome, se a infraestrutura virou pó, se o desemprego explodiu, isso é ruído de fundo. O que a agência quer saber é se o cheque para o credor de fora sai no prazo. E sai, porque sai sempre; primeiro se paga o banqueiro estrangeiro, depois se vê o que sobra para reconstruir a escola do interior.

Vale seguir o dinheiro, porque ele conta uma história que o comunicado oficial disfarça. As mesmas agências que agora afagam a Jamaica são as que, nos anos 2008 e 2009, carimbavam AAA em pacotes podres de hipoteca americana horas antes de o mercado descobrir que aquilo era lixo tóxico. O modelo de negócio é conhecido: quem paga pela nota é o emissor da dívida, ou seja, o próprio avaliado escolhe o juiz e quita o salário do juiz. Depois nos indignamos quando a sentença sai favorável. É como pedir para o réu remunerar o promotor e esperar denúncia rigorosa.

O detalhe cruel é que essa manutenção de nota, celebrada como vitória diplomática, funciona na prática como algema. A Jamaica seguirá acessando crédito internacional a custo suportável, o que significa que seguirá se endividando para reconstruir o que o furacão levou, e depois se endividando de novo para pagar os juros do endividamento anterior. É a roda de hamster tropical, na qual o país corre muito e não sai do lugar, enquanto exporta juros para credores que nunca viram uma praia jamaicana fora da propaganda de resort. Quem paga essa conta, no fim, é o cidadão comum, via imposto, via inflação, via serviço público que não chega.

Há ainda a hipocrisia climática embutida no episódio. Furacão em ilha caribenha é evento previsível, tão previsível quanto seca no sertão. Não é cisne negro, é calendário. Uma economia sadia teria reservas fiscais e seguro soberano suficientes para absorver o choque sem depender da benevolência de uma agência de Nova York. A Jamaica não tem, porque décadas de gastança estatal, programas eleitoreiros e dependência de turismo dolarizado corroeram qualquer margem de manobra. Agora a ilha bate palma porque o algoz confirmou que o cabresto continua bem ajustado.

Fica a lição, se alguém quiser aprender. Nota de crédito não é atestado de prosperidade, é certificado de submissão previsível. País livre de verdade não precisaria implorar por três letrinhas de uma agência estrangeira para se sentir digno. Precisaria de poupança, de moeda forte, de gasto público sob rédea curta e de um povo dono do próprio destino. Enquanto isso não vier, o furacão passa, a nota permanece, e a fatura continua chegando pontualmente para quem nunca foi consultado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.