A Shuka Minerals anunciou que estendeu um empréstimo conversível a um novo investidor que, por coincidência das mais engenhosas do capitalismo de escritório, também se tornou o CEO da companhia. Quer dizer, a empresa emprestou dinheiro ao sujeito para que ele pudesse virar dono de um pedaço maior da própria empresa que ele agora comanda. Se isso soa como o gato que se contrata como segurança do galinheiro, é porque é exatamente isso, só que com termo de fato relevante e assessoria jurídica caríssima para dizer que está tudo dentro da lei.

O truque do empréstimo conversível é elegante no papel e obsceno na prática. O executivo entra sem tirar um centavo do próprio bolso, recebe crédito da tesouraria que ele mesmo vai administrar, e depois converte esse crédito em ações emitidas por decisão dele próprio ou de um conselho que, convenhamos, não vai bater de frente com quem assina os cheques. O acionista antigo, aquele que colocou dinheiro de verdade lá atrás, descobre no dia seguinte que sua fatia da companhia encolheu para acomodar o novo sócio-empregado. Diluição, no jargão técnico. Roubo devagarinho, na tradução honesta.

Olha, mineradora júnior de capital aberto em Londres tem esse charme peculiar. Vive de promessa geológica, de mapa colorido de furo de sondagem e de comunicado ao mercado que fala em potencial, viabilidade e novo ciclo. Enquanto o minério não sai do chão, o que sai do caixa são honorários, bônus, opções e agora empréstimos convertíveis para o executivo da vez. É um modelo de negócio em que o produto principal não é o metal, é a ação emitida para financiar a próxima rodada de esperança vendida a investidor de varejo que confundiu jornal econômico com prospecto de fundo sério.

E note o detalhe que a nota oficial faz questão de embrulhar em papel de presente: chamam isso de alinhamento de interesses. É o vocabulário mágico do mercado moderno, aquele em que qualquer arranjo torto ganha nome bonito e vira boa prática. Alinhamento de interesses de verdade seria o CEO comprando ação com dinheiro dele, no mercado aberto, ao preço que o resto do mundo paga. O que temos aqui é o inverso: a companhia financia o executivo para que ele finja ter pele em jogo, quando na verdade a pele que está em jogo é a do minoritário que segurou a ação achando que estava investindo numa mineradora, não numa cooperativa de crédito para diretores.

Existe uma regra antiga, quase esquecida, que dizia que administrador de patrimônio alheio deve tratar o dinheiro dos outros com mais zelo do que trataria o próprio. Essa regra sumiu porque foi substituída por comitês de remuneração, consultorias de governança e relatórios ESG cheios de infográficos. O resultado dessa substituição está em cada balanço de small cap que aprova empréstimo para o próprio chefe e chama a operação de reforço estratégico de capital. Não é reforço, é sangria. E o sangue é sempre o mesmo, o do sujeito que não estava na sala quando o negócio foi combinado.

A parte que ninguém comenta é a que interessa. Se a Shuka Minerals precisava de capital, o mercado está aberto, os bancos existem, e um follow-on transparente resolve. Se o novo CEO acreditava tanto no ativo, seu próprio banco resolveria também. O fato de que a solução escolhida foi a companhia financiar o executivo revela que ninguém de fora quis pôr dinheiro nas condições oferecidas, então quem pagou a conta foi o único investidor que já estava preso lá dentro, o acionista de ontem. É a velha lei da gravidade financeira: o custo cai sempre sobre quem não tem como fugir da sala.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.