A notícia saiu embrulhada em papel celofane, como toda comunicação de empresa listada que precisa fingir normalidade diante do acionista: a Solidion Technology, aquela promessa de baterias de estado sólido que iria destronar a Ásia e salvar o Ocidente, decidiu que a melhor forma de organizar a casa é entregar o comando executivo e o comando do conselho ao mesmo homem. Jaymes Winters agora é CEO e chairman. Em bom português, é o motorista, o mecânico e o dono da oficina simultaneamente. Se der problema no motor, adivinha quem investiga.
Olha, ninguém que já viu a peça encenada duas vezes se engana com o script. Toda vez que uma companhia de tecnologia verde, dessas que vivem de promessa e prospecto, resolve fundir os dois cargos mais poderosos numa figura só, é porque o barco está fazendo água em algum canto que o balanço ainda esconde. A tese oficial vem sempre com o mesmo verniz: agilidade decisória, foco estratégico, visão unificada. A tese real, aquela que aparece na letra miúda dois anos depois, costuma ser bem menos poética. É o sinal clássico de que o board perdeu apetite para brigar, os acionistas minoritários viraram paisagem, e o capital paciente entendeu que paciência ali virou sinônimo de prejuízo.
Convém lembrar de onde veio essa Solidion. Empresa que abriu capital via SPAC, aquele veículo mágico dos anos de juro zero em que qualquer garagem virava unicórnio se prometesse a palavra bateria na apresentação de PowerPoint. Estourou o balão do dinheiro fácil, sobrou o esqueleto. E o esqueleto, para continuar respirando, depende de duas coisas: injeção de capital dos entusiastas do apocalipse climático e, principalmente, do guarda-chuva de subsídios que o governo americano espalhou pelo setor via aquela lei de nome pomposo que prometia reduzir a inflação e só fez engordar caixa de amigo. Sem subsídio, não há bateria de estado sólido comercialmente viável. Há projeto de laboratório com sala de reuniões em Manhattan.
E aqui é onde a análise se torna incômoda para o leitor bem-comportado. A concentração de poder corporativo numa empresa que vive de dinheiro do contribuinte americano não é apenas uma questão de governança, é uma questão política. Quando você paga imposto para financiar o carro elétrico de alguém, e esse alguém aloca o subsídio numa empresa cujo CEO responde apenas a si mesmo, você não está investindo em transição energética. Está sustentando uma casta que aprendeu a monetizar a virtude alheia. É o velho arranjo de compadrio pintado de verde, o mesmo mecanismo que sustentou monopólios reais durante séculos, agora com pitch deck e ESG na capa.
Repare no que não se vê, que é sempre o mais caro. Enquanto Winters acumula funções e a Solidion celebra sua nova era, o capital que financia essa festa saiu do bolso de trabalhadores que não escolheram investir em bateria nenhuma. Saiu via imposto, via inflação monetária, via distorção do custo de capital que empurrou poupança do mundo real para promessa de laboratório. Cada dólar que vai para essa aventura é um dólar que não foi para uma padaria, para uma pequena fábrica, para o sujeito que queria comprar a primeira casa. O emprego criado no comunicado à imprensa aparece na foto. O emprego destruído pela conta que financiou a foto some no aterro sanitário das estatísticas oficiais.
E o ponto final, aquele que ninguém no jornal econômico convencional terá coragem de escrever: a fusão dos cargos de CEO e chairman não é problema porque fere manual de compliance. É problema porque revela a natureza da coisa. Empresa saudável, com produto real e cliente real, não precisa concentrar poder para sobreviver. Concentra-se poder onde a legitimidade minguou e o desempenho não convence. Onde o mercado, se fosse deixado em paz, já teria dado o veredicto. Enquanto houver imposto do contribuinte bancando a novela, a novela continua. No dia em que a torneira do subsídio fechar, aí veremos quem estava nadando pelado. E, previsivelmente, quem estará usando dois chapéus ao mesmo tempo será o primeiro a aparecer sem roupa nenhuma.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.