A Soluna Holdings avançou mais um degrau na sua estratégia de posicionar-se como fornecedora de energia renovável para data centers de inteligência artificial, e a notícia veio embrulhada no papel de presente de sempre: o futuro está aqui, o planeta agradece, os acionistas sorriem. Quer dizer, sorriem hoje. Amanhã, quando o vento não soprar e o sol resolver tirar folga, alguém vai ter que ligar a turbina a gás que fica escondida atrás do painel de marketing, e aí o discurso muda de tom rapidinho.

Olha, a mecânica desse tipo de negócio é sempre a mesma e ninguém tem coragem de dizer em voz alta. Empresa monta parque eólico ou solar em cima de terreno barato, capta capital sob a bênção do selo ESG, recebe crédito fiscal, vende energia com desconto para os grandes consumidores computacionais e chama isso de revolução. Revolução seria montar o mesmo negócio sem a muleta tributária, sem o financiamento subsidiado, sem o mandato regulatório obrigando a rede a comprar energia intermitente a preço garantido. Aí sim veríamos quem está fazendo negócio e quem está apenas ordenhando o contribuinte com uma linguagem mais bonita.

A inteligência artificial, essa deusa recém-inaugurada do panteão tecnológico, consome eletricidade em quantidades que fariam uma siderúrgica dos anos setenta corar. Cada consulta ao seu chatbot preferido custa múltiplos de watts que ninguém mostra na conta. E como o consumo cresce numa curva que faz o gráfico da inflação argentina parecer horizontal, surgem empresas como a Soluna para preencher o vácuo, prometendo que a mesma energia limpa que mal dá conta de uma cidade média vai alimentar galpões inteiros de silício aquecido a mil graus. É a alquimia moderna: transformar subsídio em narrativa, narrativa em ação, ação em bônus executivo.

Siga o dinheiro e a fábula desmorona. Quem financia o entusiasmo verde não é o investidor de risco puro, é o cofre público disfarçado de fundo de pensão, é o crédito de carbono inventado por decreto, é o incentivo tributário que a empresa concorrente sem selo verde não recebe. O mercado, deixado sozinho, escolheria a matriz mais barata e mais estável para alimentar suas máquinas pensantes, e essa matriz raramente coincide com a que os ministros do clima escolheram. Quando a escolha é imposta de cima, o resultado é um mercado artificial onde vencedores são coroados em Brasília, Washington e Bruxelas, não no cálculo frio de quem produz o que a um custo defensável.

Há ainda o pequeno detalhe que os entusiastas da inteligência artificial preferem esconder debaixo do tapete: a promessa de que essas máquinas vão nos libertar do trabalho braçal e mental convive muito mal com o fato de que elas dependem de uma infraestrutura energética faraônica, cuja fatura acaba caindo no bolso do sujeito comum que paga tarifa mais alta para subsidiar o data center que treina o modelo que vai eventualmente substituí-lo. É a serpente engolindo o próprio rabo com aval regulatório, e a plateia aplaude porque o folheto está em papel reciclado.

No fim, a Soluna e suas irmãs de estratégia estão apostando que o casamento entre energia intermitente e computação intensiva continuará sendo bancado por transferências invisíveis do contribuinte para o acionista. Enquanto o esquema durar, os relatórios trimestrais vão brilhar. Quando a torneira do subsídio fechar, e ela sempre fecha, restarão apenas painéis empoeirados e servidores desligados como monumentos ao entusiasmo travestido de estratégia. O sol, esse, vai continuar nascendo de graça para todo mundo, inclusive para quem soube não comprar a ação.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.