A Southwest anunciou promoção com até 40% de desconto em passagens domésticas, e a notícia parece banal até você lembrar que, em algum lugar do planeta, existe um burocrata convencido de que sem ele a empresa aérea cobraria o que quisesse do passageiro indefeso. A realidade é o oposto exato disso. O que aperta o preço da passagem não é agência reguladora, não é ministro dos transportes, não é secretaria de defesa do consumidor com sigla de quatro letras: é o assento vazio decolando amanhã de manhã, item perecível por excelência, mercadoria que perde cem por cento do valor no instante em que a porta do avião fecha.
Quem já entendeu como funciona uma companhia aérea sabe que o negócio inteiro é uma corrida contra o relógio para preencher poltrona antes que ela vire prejuízo puro. Combustível já foi comprado, tripulação já foi paga, slot no aeroporto já foi reservado, avião vai voar de qualquer jeito. Vender o assento com quarenta por cento de desconto não é generosidade, não é bondade corporativa, não é gesto de responsabilidade social: é o cálculo mais frio do mundo feito por alguém que prefere embolsar sessenta por cento a torrar cem por cento. E é exatamente essa frieza calculada, esse egoísmo bem administrado, que produz o resultado que o passageiro chama de promoção.
Repare no que se vê e, principalmente, no que ninguém vê. Vê-se a manchete alegre, o desconto, a família que agora consegue visitar a avó em outro estado. Não se vê o batalhão de analistas de receita comparando preço de concorrente em tempo real, o algoritmo ajustando tarifa de hora em hora, o gerente de rota decidindo qual voo merece corte e qual aguenta manter valor cheio. Nenhuma dessas decisões passa por votação, por consulta pública, por comissão parlamentar. Elas emergem da mesma ordem espontânea que faz o padeiro saber quantos pães assar sem que ninguém lhe mande memorando. É conhecimento disperso trabalhando, e trabalha melhor porque ninguém está fingindo que sabe tudo do alto de uma cadeira em Brasília ou em Washington.
Compare, só por esporte intelectual, com o que acontece quando o Estado resolve meter a mão. Toda vez que algum iluminado propõe tabelar passagem aérea, congelar tarifa, obrigar empresa a vender abaixo do custo em nome do interesse público, o resultado é rigorosamente o mesmo em toda parte do globo: sumiço de oferta, fila, deterioração da malha, e depois de alguns anos alguém precisa reestatizar a bagunça para tampar o buraco cavado pela boa intenção anterior. A Venezuela tinha companhias aéreas. Cuba tinha companhias aéreas. Toda economia planejada tem, no papel, transporte de massa fantástico. Na prática, o cidadão viaja de balsa lotada.
Há também aqui uma lição sobre inflação que os apologistas da impressora costumam esquecer. Quando o dinheiro conserva algum valor, empresa consegue oferecer desconto real, porque o preço nominal significa alguma coisa. Numa economia onde o governo emite papel como quem produz confete de carnaval, promoção deixa de ser promoção e vira apenas a atualização atrasada do preço para o novo padrão de desvalorização. Se o consumidor americano ainda enxerga quarenta por cento como quarenta por cento de verdade, é porque, apesar de todas as tolices monetárias das últimas décadas, o dólar ainda não virou bolívar. Ainda.
Então da próxima vez que aparecer um candidato prometendo baratear passagem por decreto, criar companhia aérea estatal para servir ao povo, obrigar as empresas privadas a praticarem preço justo definido em comitê, lembre da Southwest cortando quarenta por cento sozinha, sem pedir licença, sem consultar ministério, sem esperar autorização. O mercado, quando deixam ele em paz, resolve em uma tarde o que o Estado promete resolver em três mandatos e nunca entrega. A liberdade econômica não precisa de propaganda: basta olhar o preço da passagem.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.