A Specialised Therapeutics anunciou a expansão do acordo comercial com a norte-americana Incyte para distribuir terapias oncológicas na Austrália e na Nova Zelândia. É uma dessas notícias que passam batidas na imprensa brasileira porque não tem escândalo, não tem político metendo a mão, não tem lacração ideológica. Tem apenas o que o mundo civilizado faz há séculos quando o Estado sai da frente, dois agentes privados combinam entregar valor a quem precisa e dividem o risco entre si. Nenhum comitê interministerial precisou aprovar. Nenhuma agência regulou o preço no atacado. Nenhum burocrata de Camberra ou de Washington sentou numa mesa para decidir quantas doses de qual medicamento seriam produzidas para qual paciente.

Repare no detalhe que a imprensa econômica insiste em ignorar. O contrato entre as duas farmacêuticas é a materialização de algo que os planejadores centrais nunca conseguiram replicar, o conhecimento disperso sobre o que é preciso, onde é preciso, quando é preciso e a que preço é preciso. A Incyte sabe como desenvolver a molécula. A Specialised sabe como distribuir no mercado local. Cada uma domina a sua parte. Nenhuma delas precisou de um planejador iluminado ditando de cima para baixo a alocação ótima. O preço, a logística, a estratégia comercial, tudo emerge da negociação entre quem tem a informação real na ponta.

Agora compare com o Brasil. Aqui, quando uma farmacêutica quer entrar no mercado, precisa peregrinar por corredores da Anvisa que se arrastam por anos, enfrentar câmaras de regulação de preços que decidem por decreto quanto vale a pesquisa de bilhões de dólares, e ainda torcer para que algum secretário de saúde não resolva incorporar ou desincorporar o produto conforme o humor eleitoral do momento. O paciente brasileiro paga o preço dessa engenharia, ou espera anos por medicamentos que já circulam na Austrália, ou paga do próprio bolso o valor inflado pelo próprio Estado que dizia estar protegendo o consumidor. É a velha história, o remédio que se vê custa caro, o remédio que não se vê porque nunca chegou custa vidas.

Siga o dinheiro do acordo australiano e a lição fica clara. Ninguém foi obrigado a pagar imposto para financiar a parceria. Nenhum contribuinte assumiu o risco do fracasso comercial. Se der errado, prejuízo dos acionistas. Se der certo, benefício dos pacientes e retorno para quem apostou capital próprio. É o inverso exato do modelo que virou dogma na periferia do mundo, onde o Estado socializa perdas, privatiza lucros de amigos, e depois vende a fábula de que sem ele o mercado não funcionaria. A Austrália desmente essa mentira todos os dias, e a expansão desse acordo é apenas mais um episódio banal de uma economia que funciona porque não foi capturada pela pretensão de que meia dúzia de sábios em gabinetes sabe mais que milhões de agentes trocando informação em preços reais.

O interessante é que a notícia chega ao Brasil como curiosidade de nicho, quando deveria ser manchete de escola. É o tipo de exemplo pedagógico que deveria ser ensinado nas faculdades de economia antes que o aluno seja doutrinado a acreditar que sem o Ministério da Saúde ninguém tomaria remédio. A cooperação voluntária entre empresas de países diferentes, entregando valor real a pacientes reais, sem intermediação estatal na formação do contrato, é o oposto exato daquilo que os ideólogos do intervencionismo dizem ser possível. E funciona. Funciona há décadas. Funciona porque cada parte tem incentivo genuíno para entregar aquilo que prometeu.

No fim, o que essa notícia diz aos ouvidos treinados é simples. O mercado livre não é uma teoria bonita de livro velho, é o mecanismo real que continua salvando vidas enquanto os defensores do Estado onipresente escrevem teses sobre a necessidade de mais regulação. Enquanto Brasília discute se o cidadão pode escolher seu tratamento sem carimbo estatal, o mundo civilizado assina contratos, entrega produtos e segue em frente. A pergunta que fica para o leitor brasileiro é desconfortável, por que aquilo que funciona no resto do mundo aqui é apresentado como impossível.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.