A SPS Commerce, essa empresa que ninguém do varejo brasileiro conhece mas que fatura bilhões em silêncio, resolveu subir no palco do momento e anunciar sua própria suíte de inteligência artificial para cadeia de suprimentos. Chama-se MAX, já está disponível, promete otimizar previsão de demanda, automatizar reconciliação de pedidos, cruzar dados de milhares de varejistas e fornecedores em tempo real. O comunicado veio embalado no vocabulário obrigatório da estação, transformação digital, insights acionáveis, escalabilidade, aquelas palavras que servem para embrulhar qualquer coisa e vender por múltiplo de trinta vezes o lucro. E o mercado, obediente, aplaudiu.
Olha, tem um detalhe que ninguém quer discutir nessa festa. A cadeia de suprimentos global só ficou tão frágil, tão dependente de otimização algorítmica de última milha, porque décadas de dinheiro barato empurraram todo mundo para o just-in-time levado ao paroxismo. Empresa nenhuma pode carregar estoque, porque estoque é ineficiente, porque o custo de capital foi artificialmente zerado, porque o banco central de plantão jurou que juro real negativo era o novo normal. Aí veio a pandemia, veio a guerra, veio a inflação, e a mesma cadeia enxuta desmoronou como castelo de cartas. Agora vendem inteligência artificial para tapar o buraco que a política monetária cavou. É o consultor cobrando para consertar o telhado que o irmão dele furou.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais divertida. A SPS Commerce é o intermediário que se instalou entre o Walmart e seus dez mil fornecedores nos anos noventa, cobrando pedágio digital em cada nota fiscal eletrônica trocada. Construiu um monopólio de fato usando o padrão EDI, aquele protocolo dos anos setenta que ninguém mais entende mas que todo mundo precisa. Agora, com o negócio maduro e a receita recorrente garantida, precisa contar uma história nova para justificar a próxima rodada de valorização. A história é IA. Sempre é IA. Ano passado era blockchain, antes disso era big data, antes disso era e-business. O rótulo muda, a mecânica de extrair rents do cliente cativo permanece idêntica.
Me diz uma coisa, você acredita mesmo que um algoritmo treinado com dados históricos de venda vai prever a próxima ruptura de contêiner no Mar Vermelho, o próximo lockdown chinês, a próxima intervenção cambial do governo argentino? A previsão estatística funciona quando o futuro se parece com o passado, e o mundo em que essas empresas operam é justamente o mundo onde os planejadores centrais garantem, todo santo trimestre, que o futuro não se parecerá com o passado. Cada decisão de política monetária, cada tarifa nova, cada sanção, cada subsídio setorial joga areia na engrenagem do modelo. A inteligência artificial vendida como oráculo é, na prática, um espelho retrovisor caríssimo com filtro de instagram.
E tem o custo invisível, aquele que ninguém coloca no slide do investor day. Empresa que terceiriza pensamento estratégico para caixa preta algorítmica perde, ao longo dos anos, a capacidade de raciocinar sobre o próprio negócio. O gerente de compras vira operador de dashboard. O planejador de demanda vira apertador de botão de aprovação. Quando o modelo falha, e ele vai falhar no primeiro cisne negro sério, não sobra ninguém dentro da empresa que ainda saiba fazer a conta na mão. Isso não é ganho de produtividade, isso é atrofia disfarçada de eficiência, é a mesma lógica do assistencialismo aplicada ao capital humano corporativo.
O varejista brasileiro que estiver lendo isso e cogitando assinar mais um contrato em dólar para consumir MAX, ou seja lá qual for a próxima sigla, faz bem em lembrar que a cadeia de suprimentos mais resiliente da história humana funcionava com telefone, fax e sujeito de camisa social que conhecia o cliente pelo nome. A tecnologia é ferramenta, não é substituto para julgamento. Quem entrega julgamento para máquina alugada por assinatura mensal está pagando para virar refém, e refém não negocia preço na renovação. A conta chega, sempre chega, e chega em moeda forte.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.