A cena é conhecida por qualquer um que já viu uma empresa navegar em mar revolto. A Starz Entertainment, que se desmembrou da Lionsgate em maio do ano passado tentando sobreviver como pure play de streaming num mercado onde os gigantes já se digladiam por cada centavo de atenção, resolveu renovar o contrato de trabalho da sua presidente, Alison Hoffman. O comunicado veio embalado no papel celofane de sempre, aquele vocabulário corporativo que traduz decisão política em linguagem de destino manifesto, como se a executiva fosse insubstituível e o conselho estivesse simplesmente reconhecendo o inevitável. Só que ninguém renova antecipadamente contrato de quem está entregando resultado extraordinário; renova-se antecipadamente quem se teme perder ou quem se precisa proteger.
Olha, a Starz vem apanhando. Perdeu assinantes em quatro dos últimos cinco trimestres reportados antes do spin-off, viu a receita de licenciamento derreter, e agora navega sozinha num oceano onde Netflix, Disney, Warner e Amazon têm cofres bilionários para queimar em conteúdo. A empresa vale hoje uma fração do que valia quando era braço da Lionsgate, e o mercado precificou, com aquela frieza que só o capital tem, o ceticismo sobre a viabilidade do modelo standalone. Nesse contexto, renovar contrato de executiva é sinalizar continuidade. Só que continuidade de quê, exatamente? Da estratégia que produziu esses números? Do plano que ainda não convenceu o mercado? A pergunta que ninguém no conselho quer fazer é justamente a que o acionista minoritário deveria estar berrando.
Quer dizer, é fascinante observar o ritual. Quando uma empresa privada patina, o conselho tem duas escolhas honestas: trocar o comando ou justificar publicamente, com dados, por que mantém o comando atual. O que a Starz fez foi a terceira via, a via covarde, a que assina cheque em branco embrulhado em release institucional. E aqui entra o ponto que raramente aparece na cobertura financeira brasileira, viciada em repetir comunicado de assessoria como se fosse jornalismo: pacote de renovação de executivo de streaming em empresa listada nos Estados Unidos costuma vir carregado de stock options, bônus de performance calibrados para métricas escolhidas pela própria diretoria, e cláusulas de golden parachute que garantem à executiva sair rica mesmo que a empresa afunde. É o famoso arranjo em que o profissional ganha se der certo e ganha se der errado, e quem paga a conta em ambos os cenários é o acionista que confiou na governança.
Me diz uma coisa: em que outro setor da economia real o dirigente é blindado dessa maneira? O dono da padaria da esquina não tem contrato de renovação antecipada com bônus atrelado a métrica que ele mesmo negocia. O taxista que perde clientes para o aplicativo não recebe pacote de retenção. O agricultor que vê a safra fracassar não é indenizado pelo próprio fracasso. Só na estratosfera das corporações listadas, essa aristocracia gerencial americana que se autoperpetuou nas últimas quatro décadas, floresceu o arranjo onde o risco é socializado entre acionistas e o benefício é privatizado no bolso do executivo. E o mais irônico é que muita dessa gente ainda tem coragem de discursar sobre meritocracia em painel de Davos.
O que se vê é a renovação, o comunicado, o aperto de mão simulado para a foto institucional. O que não se vê é o custo de oportunidade, o executivo com sangue novo que não foi buscado, a reestruturação que ficou na gaveta, o acionista que continuará financiando salário de sete dígitos enquanto o valor da ação testa fundos. Quando o capitalismo funciona, o mau gestor é substituído pelo mecanismo de mercado. Quando o capitalismo é substituído por conselhos de administração que se comportam como cortesãos protegendo seus pares, o mercado deixa de fazer seu trabalho de destruição criativa e vira uma variante educada do mesmo compadrio que sempre criticamos no Estado. A diferença é que no Estado o dinheiro é seu, tomado à força pelo imposto. Na corporação capturada, o dinheiro é do minoritário que assinou embaixo achando que a governança funcionava.
A Starz pode até se recuperar. O streaming pode encontrar novo equilíbrio. A Hoffman pode até ser a executiva certa. Mas o mercado só descobre isso destronando quem falha e coroando quem entrega, não protegendo quem está no cargo com contrato blindado antes de a poeira baixar. Governança corporativa que renova contrato antes de resultado é a mesma criatura, com gravata mais cara, do político que aprova aumento próprio na calada da noite. Ambos apostam que ninguém está olhando. E quase sempre acertam.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.