A cena é tão banal que ninguém mais estranha. Um analista de banco em Nova York abre a planilha, ajusta o preço-alvo da Inspire Medical para cima, cita "melhora no ambiente de reembolso" como justificativa, e a manada corre para comprar o papel. O que ninguém escreve com todas as letras é o que realmente aconteceu: a burocracia federal americana, especificamente a agência que administra o Medicare, decidiu que vai desembolsar mais por cada implante contra apneia do sono vendido pela empresa. Pronto, nasceu a "tese de investimento". Não houve inovação disruptiva, não houve conquista de mercado no tapa da concorrência, não houve queda de custo por engenhosidade fabril. Houve caneta de burocrata mexendo em tabela de preço tabelado, e o mercado aplaudindo de pé.
Repare no truque, porque ele é fino. Quando o governo fixa o preço que paga por um procedimento, ele não está descobrindo o valor daquele procedimento, está inventando um valor. Esse valor inventado vira receita garantida para o fabricante, que por sua vez vira múltiplo de lucro projetado, que por sua vez vira recomendação de compra do analista, que por sua vez vira alta da ação, que por sua vez vira bônus para o executivo que soube fazer lobby na hora certa em Washington. O consumidor final do aparelho não escolheu nada, não negociou nada, não comparou nada. O contribuinte que banca o Medicare também não foi consultado. Só o lobista, o burocrata, o executivo e o gestor de fundo participaram da festa. Os quatro brindaram com champanhe pago por quem nunca foi convidado.
Chamam isso de setor privado de saúde nos Estados Unidos, e a piada é grossa. Setor privado de verdade seria um mercado em que a empresa vende para pacientes que pagam com o próprio bolso, ou para seguradoras que negociam duro porque respondem a clientes exigentes. O que existe hoje é um triângulo perverso em que fabricante, hospital e agência federal combinam preços numa dança coreografada, e o dinheiro sai da folha de pagamento de gente que nunca vai colocar o tal implante. Toda vez que o reembolso sobe, a ação sobe. Toda vez que a ação sobe, o executivo recebe stock option. Toda vez que ele recebe stock option, contrata mais lobista. E o ciclo se realimenta com combustível alheio.
Existe uma regra silenciosa que os relatórios de banco nunca escrevem, mas todo mundo do buy side entende de cor: aposte nas empresas que dependem de dinheiro público, porque o político raramente corta o que já concedeu. Uma vez que o Medicare aumenta o reembolso de um procedimento, desfazer aquilo custa capital político que ninguém quer gastar. Grupo de interesse organizado defende com unhas e dentes, paciente beneficiado vira eleitor cativo, associação médica sai em defesa da "ciência", e a imprensa especializada publica editorial contra qualquer tentativa de revisão. Resultado, o subsídio virou permanente, e a ação da Inspire virou renda fixa disfarçada de tecnologia médica.
O sono de milhões de americanos que sofrem de apneia é problema real, ninguém contesta isso. O que se contesta é o arranjo em que o alívio desses pacientes é usado como pretexto para transferir riqueza de forma opaca do bolso coletivo para o balanço de uma empresa listada. Se o aparelho é bom, que se prove no mercado, com preço livre, concorrência aberta e paciente decidindo com informação transparente. Se depende de tabela federal para justificar o preço-alvo do analista, então o produto que se vende não é medicina, é acesso privilegiado ao cofre público. E acesso privilegiado ao cofre público, por definição, é o oposto de capitalismo. É a versão moderna do monopólio real que a Coroa britânica distribuía a nobres amigos, só que agora com PowerPoint e call trimestral.
Enquanto isso, o brasileiro que lê a notícia deveria prestar atenção redobrada, porque o mesmo modelo já opera aqui, apenas com nomes diferentes. Rol da ANS, tabela SUS, incorporação pela CONITEC, cada sigla dessas é uma porta pela qual fabricante entra armado de estudo pago e sai carregando bilhões em receita garantida. O jornal econômico chama de "avanço regulatório", o executivo chama de "expansão de mercado endereçável", e o cidadão chama de "por que meu plano de saúde subiu de novo". Os três estão descrevendo a mesma coisa, apenas em línguas diferentes. A diferença é que só um deles paga a conta, e adivinha qual.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.