A notícia chega embrulhada em papel de presente. A StoneX elevou o preço-alvo da Securitize, plataforma de tokenização de ativos do mundo real, depois que a SEC concedeu à empresa uma isenção regulatória que, na prática, permite operar em um terreno onde os concorrentes ainda precisam pedir licença para respirar. O relatório fala em novo patamar, em janela de oportunidade, em vantagem competitiva. Traduzindo do economês para o português honesto: um regulador decidiu, por caneta, quem entra na festa e quem fica no estacionamento.
Olha, é curioso o modo como o mercado financeiro, aquele mesmo que jura defender a livre concorrência quando lhe convém, aplaude de pé sempre que a caneta do burocrata cai a seu favor. A isenção da SEC não é fruto de uma revolução tecnológica que obrigou o regulador a se render à realidade, é o resultado previsível de anos de lobby, de portas giratórias entre escritórios de advocacia e agências federais, de jantares em Washington que ninguém filma. Siga o dinheiro e você encontra o de sempre: consultores caríssimos, ex-diretores de agência hoje empregados no setor privado, e um punhado de investidores institucionais que precisavam de uma porta destrancada para colocar bilhões em ativos tokenizados sem passar pelo mesmo funil regulatório que sufoca o pequeno emissor.
A retórica oficial fala em amadurecimento do mercado, em segurança jurídica, em modernização. Quer dizer, o mesmo regulador que passou anos tratando cripto como praga bíblica agora descobriu, milagrosamente, que tokenização de títulos privados é coisa séria, desde que operada pela empresa certa, com os sócios certos, no momento certo. É o velho truque da regulação seletiva, aquele em que a lei serve para peneirar competidores, não para proteger o consumidor. Quem tem advogado bom e amigo em Manhattan navega pela isenção. Quem não tem, enfrenta a Securities Act de 1933 como se ainda estivéssemos no crash de 29.
E aqui está o ponto que os analistas de bancos evitam com o cuidado de quem contorna uma poça de piche. Ativos do mundo real tokenizados, essa nova sensação, são em boa parte a mesma receita de sempre: crédito privado, imóveis alavancados, títulos ilíquidos empacotados numa camisinha digital para parecer inovação. A tokenização não muda a natureza do ativo subjacente, muda a facilidade com que ele circula e, portanto, a velocidade com que uma eventual quebra contamina o sistema. Quando o próximo susto vier, e virá, o mesmo regulador que hoje distribui isenções vai reaparecer, dedo em riste, exigindo salvamento com dinheiro do contribuinte que jamais foi consultado sobre nada disso.
O que se vê é a manchete otimista, o preço-alvo revisado para cima, a euforia dos gestores que agora podem alocar em produtos exóticos com carimbo federal. O que não se vê é o pequeno emissor que continua barrado por não conseguir pagar meio milhão em compliance, o investidor de varejo que vai comprar cotas tokenizadas achando que é o futuro quando na verdade é a versão 2.0 dos derivativos de 2007, e o contribuinte anônimo que, na próxima crise, vai descobrir que estava garantindo essa festa o tempo todo sem ter recebido convite. Chama-se isso de capitalismo de compadrio, e ele não fica menos indecente por se vestir de blockchain.
A Securitize pode até merecer parte do entusiasmo por questões técnicas, isso é irrelevante para o argumento. O escândalo não é a empresa, é o arranjo. Toda vez que um regulador decide quem vive e quem morre por meio de isenções pontuais, o mercado deixa de ser mercado e vira feudo, com senhores e servos, com pedágios e passes livres. E enquanto se comemora o preço-alvo, ninguém pergunta o preço real, aquele que sempre é pago em silêncio pelos que não tinham voz na sala onde a caneta foi assinada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.