A StoneX bateu o martelo e reiterou a recomendação de compra para as ações da Kamada, farmacêutica israelense especializada em imunoglobulinas, com o argumento de que a demanda global por tratamento antirrábico está em ascensão. Traduzindo do economês para o português: cachorro morde gente no mundo inteiro, morcego contamina rebanho, guaxinim raivoso invade quintal americano, e alguém precisa produzir o soro que impede a morte. Esse alguém é uma empresa privada listada em bolsa, e o retorno esperado pelos analistas é robusto o suficiente para virar tese de investimento em relatório de casa séria.
Convém olhar para o que não se vê antes de comemorar ou torcer o nariz. A raiva humana é doença de erradicação trivial há mais de um século, existe vacina eficaz, existe protocolo pós-exposição consagrado, e mesmo assim continua matando gente em número que envergonha qualquer ministério da saúde do planeta. Por quê? Porque programas de vacinação animal, campanhas de controle populacional canino e distribuição de imunoglobulina são atribuições que caíram no colo do Estado em quase todo lugar, e o Estado, sendo o que é, faz mal, faz tarde ou não faz. O resultado é um mercado privado florescente para tapar o buraco que o monopólio público deixou aberto.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. A Kamada não inventou a raiva, não fabricou a demanda, não corrompeu autoridade sanitária nenhuma para vender mais frasco. Ela ocupou o vácuo. Governos compram lote, hospitais particulares compram lote, seguradoras internacionais compram lote, e o preço da imunoglobulina antirrábica sobe porque a oferta é limitada, a produção é técnica e cara, e a alternativa para quem foi mordido é morrer de encefalite em quarenta e oito horas. Chama-se valor subjetivo do bem escasso, e nenhum controle de preço estatal jamais conseguiu revogar essa lei sem produzir desabastecimento pior.
Existe uma ironia deliciosa no relatório da StoneX que passa despercebida ao leitor apressado. Enquanto ministros da saúde de meia dúzia de países dão entrevista prometendo erradicação em cinco anos, os mesmos governos aumentam contrato de compra com a Kamada e congêneres, o que significa admitir na planilha o que negam no microfone. A verdade orçamentária é sempre mais honesta que o discurso oficial, e quem lê balanço de empresa farmacêutica sabe mais sobre saúde pública global do que o repórter que cobre coletiva de imprensa em Brasília ou Genebra.
Há ainda a dimensão moral que os economistas de banco central fingem não enxergar. Cada dose de imunoglobulina produzida por iniciativa privada, vendida com margem, distribuída pela lógica fria do lucro, salva uma vida concreta que a lógica quente do planejamento não salvou. O empresário israelense que aloca capital em biotecnologia de nicho está fazendo, sem alarde e sem ONG, o que meio século de retórica humanitarista prometeu e não entregou. E o investidor que compra o papel na bolsa está financiando essa cadeia, embolsando dividendo, e no processo mantendo viva a infraestrutura industrial que impede o retorno de uma doença medieval.
Fica a lição para quem tem ouvidos de ouvir. Toda vez que aparecer no jornal a manchete de tese de compra para farmacêutica de doença negligenciada, entenda que está diante da confissão silenciosa do fracasso estatal e do triunfo silencioso do mercado que ninguém quer aplaudir em público. Os analistas veem a demanda crescer, os cotistas veem o dividendo subir, e o mendigo mordido pelo cão na periferia de Manila continua vivo graças a um contrato de fornecimento assinado a dez mil quilômetros de distância por gente que ele nunca conheceu. Capitalismo é isso, e por isso incomoda tanto quem preferia que a salvação viesse com carimbo de repartição pública.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.