A notícia parece técnica, quase tediosa. A Storm Exploration, uma daquelas empresas juniores de mineração listadas em Toronto, concluiu uma oferta de esforços restritos e levantou C$ 3,2 milhões em unidades e ações de fluxo, o tal flow-through que o Canadá inventou para transferir dedução fiscal do balanço da mineradora para o bolso do investidor rico. Traduzindo o economês, o governo canadense abre mão de arrecadar imposto de quem compra o papel, desde que o dinheiro seja gasto em exploração no subsolo. É subsídio, mas com nome bonito, gravata e advogado tributarista assinando embaixo.

Quem olha superficialmente vê iniciativa privada arrumando capital para procurar ouro, cobre, lítio, o que der. Quem segue o dinheiro vê outra coisa. Sem o incentivo fiscal, boa parte dessas juniores não fecharia rodada nenhuma. O que sustenta o setor não é a expectativa racional de retorno geológico; é a expectativa racional de abater imposto agora e torcer para o furo dar liga depois. O investidor não está apostando na mina; está apostando contra a Receita canadense. E o Estado, generoso com o dinheiro alheio, alimenta a mesa achando que está fomentando a economia.

Há um detalhe que ninguém sublinha nos comunicados oficiais. Cada dólar de incentivo fiscal que sai do Tesouro para bancar exploração mineral é um dólar que deixa de ser cobrado, o que significa, na aritmética simples da vida real, que alguém em algum lugar vai pagar a diferença. Ou via imposto maior no futuro, ou via inflação quando o Banco do Canadá cobrir buraco fiscal com liquidez, ou via corte de serviço que o cidadão comum jurava ser eterno. O emprego que aparece no acampamento de exploração é visível e fotogênico; o custo espalhado pelo contribuinte médio é invisível e por isso politicamente barato.

O momento também merece atenção. Juros ainda altos, bolsa lateralizada, capital de risco escasso, e mesmo assim a Storm consegue colocação privada rápida, com fundo e agente cortando corretagem para atrair o negócio. Isso não é sinal de mercado saudável, é sinal de mercado faminto. Quando o investidor institucional aceita entrar em júnior de mineração porque não tem coisa melhor para fazer com o dinheiro, o problema não é a empresa que capta; é o cenário macro que empurra a poupança para apostas cada vez mais especulativas. Anos de repressão de juros, expansão monetária e política industrial travestida de incentivo criaram uma geração inteira de investidor que confunde subsídio com oportunidade.

E aqui aparece o traço mais brasileiro de uma história canadense. O modelo é o mesmo que se vê no Nordeste com incentivo da Sudene, no Sul com BNDES carimbando setor estratégico, em Brasília com Lei do Bem para pesquisa e desenvolvimento. Muda o idioma, muda o bioma, não muda a lógica. O Estado escolhe o vencedor, transfere risco para o contribuinte, privatiza o eventual lucro e ainda cobra reverência do beneficiário como se estivesse fazendo favor à sociedade. Quando o furo dá certo, é mérito do empreendedor visionário. Quando não dá, foi risco natural do setor e ninguém devolve o crédito fiscal consumido.

Torcer para a Storm achar minério é legítimo, e é possível que ache. Mas confundir captação subsidiada com pujança de mercado livre é o tipo de erro que custa caro na conta do país inteiro. Mercado de capitais sadio não precisa de muleta fiscal para funcionar; precisa de moeda estável, propriedade respeitada e Estado pequeno o bastante para caber no seu quadrado. Enquanto isso não vier, seguiremos aplaudindo cada rodada como se fosse triunfo do capitalismo, sem perceber que estamos batendo palma para uma versão maquiada do mesmo compadrio de sempre.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.