A notícia chega envelopada em jargão regulatório, "segundo fechamento", "esforços restritos", "unidades subscritas", todo o vocabulário burocrático que serve para uma coisa só, disfarçar o tamanho ridículo do número. Cento e noventa e oito mil dólares canadenses. Isso não é capitalização de mineradora, isso é vaquinha de condomínio. E o mais revelador é que precisou de dois fechamentos, ou seja, no primeiro nem esse trocado apareceu, tiveram que esticar o prazo, remarcar a reunião, ligar de novo para os primos ricos. Quando o balcão pede prorrogação, o produto não está vendendo.
Olha, o mercado de capitais existe justamente para separar projeto viável de aventura financiada com esperança alheia. Quando uma empresa consegue captar bilhões numa manhã, o mercado está dizendo "acreditamos". Quando consegue arrancar duzentos mil em dois turnos, o mercado está dizendo outra coisa, algo bem mais desconfortável, que o preço subjetivo que os investidores atribuem àquele empreendimento é praticamente zero. Não existe valor intrínseco em minério no solo, existe valor no que alguém está disposto a pagar hoje para explorá-lo, e esse alguém não apareceu.
Quer dizer, o esquema das "unidades" em oferta restrita canadense funciona assim, você empacota uma ação com meio warrant, meio bônus, cobre com o verniz de "regulamentado pela CSA" e vende para investidor credenciado que já não sabe onde enfiar dinheiro que perdeu poder de compra graças à impressora do Banco do Canadá. A oferta restrita é o desaguadouro natural de todo o dinheiro barato que os bancos centrais bombearam na década passada, dinheiro que precisa procurar rendimento em qualquer canto porque a moeda derreteu no bolso. Sem essa expansão monetária artificial, projetos desse porte simplesmente não sairiam do PowerPoint.
E aqui aparece a parte que ninguém comenta, siga a trilha do dinheiro. Duzentos mil captados brutos viram menos de duzentos mil líquidos depois que agente de colocação, advogado, auditor, comissão da bolsa e taxa regulatória mordem cada um sua fatia. Sobra literalmente centavos por ação em caixa operacional. O único ganhador garantido de uma captação desse tamanho é a cadeia de intermediários que cobra taxa fixa independentemente do sucesso do projeto. O investidor aposta, a empresa promete, e o cartório recebe. É a versão financeira do cassino em que a casa sempre ganha, só que aqui a casa se chama compliance.
Me diz uma coisa, quantas dessas mineradoras júnior canadenses efetivamente entregam mineração? A resposta honesta, que nenhum analista de sell side vai colocar no relatório, é que a esmagadora maioria queima o capital captado em salário de diretoria, viagem a conferência de investidor e relatório técnico NI 43-101 que serve para justificar a próxima rodada de captação. É um moto contínuo alimentado por otimismo tributariamente incentivado, porque no Canadá o flow through share dá abatimento de imposto para quem investe em exploração mineral. Tira o subsídio fiscal disfarçado e metade dessas empresas some no ano seguinte.
O que se vê é o comunicado triunfal celebrando o fechamento. O que não se vê é o capital que poderia ter ido para um negócio produtivo e foi drenado por uma estrutura que só existe porque o sistema tributário premia quem aposta em buraco no chão contra quem investe em fábrica. Cada dólar que entra numa captação dessas é um dólar que não financiou uma padaria, uma oficina, uma startup real com cliente pagante. A ilusão de "mercado de capitais dinâmico" esconde uma alocação péssima de recursos escassos, e quem paga a conta no fim é o poupador que confiou no prospecto e o contribuinte que banca o incentivo fiscal.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.