A Summit Therapeutics soltou nesta semana a atualização do ensaio clínico do ivonescimabe, seu anticorpo biespecífico contra câncer de pulmão de células não pequenas, e os números vieram bons o bastante para o mercado reagir na hora. Benefício sustentado de sobrevivência global, redução consistente do risco de progressão, dados que reforçam o que a fase 3 já vinha sinalizando. Traduzindo do inglês corporativo para o português do consumidor final, pessoas que estariam mortas continuam vivas, e continuam vivas por mais tempo do que os pacientes tratados com o padrão atual. Isso, num setor onde ganhar três meses já é notícia, é terremoto.
Convém olhar para o arranjo antes de aplaudir ou torcer o nariz. O ivonescimabe nasceu na chinesa Akeso, foi licenciado pela Summit num negócio bilionário em 2022, e agora atravessa o pente fino do FDA americano num ensaio global. Ou seja, capital de risco americano, ciência sino-ocidental, ensaio multicêntrico, e o resultado chega ao paciente porque em algum ponto da cadeia alguém colocou dinheiro próprio na mesa apostando que a molécula funcionaria. Ninguém votou em assembleia se o câncer merecia cura. Ninguém abriu edital público para decidir qual anticorpo receberia subsídio. O mercado de capitais fez o que faz melhor, alocar recurso escasso em aposta incerta, e quando dá certo, o benefício vaza para todo mundo, inclusive para quem xinga o capitalismo no Twitter enquanto toma quimioterapia que só existe porque alguém quis lucrar.
E aqui entra a parte que ninguém gosta de discutir. Cada dólar gasto em pesquisa oncológica de ponta é um dólar que precisou existir antes, precisou ser poupado, precisou escapar do confisco tributário, precisou encontrar um investidor disposto a perder tudo em troca da chance de ganhar muito. Quando o governo americano ameaça tabelar preço de medicamento novo via Medicare, quando a Anvisa demora uma década para aprovar o que o FDA já liberou, quando o BNDES resolve financiar campeão nacional em vez de deixar o capital privado escolher, o efeito visível é o preço menor de manchete. O efeito invisível é a molécula que não foi desenvolvida, o ensaio clínico que não aconteceu, o paciente que morreu porque o remédio dele ainda estava na cabeça de um pesquisador sem financiamento.
O Brasil assiste a isso de fora, como sempre. Enquanto a Summit valoriza em Nova York e a Akeso comemora em Hong Kong, aqui se debate se o SUS vai incorporar o pembrolizumabe cinco anos depois do resto do mundo, e a resposta costuma ser não porque não cabe no orçamento, orçamento esse que sobra para emenda de relator, para estatal deficitária, para subsídio a montadora que nunca vai devolver o que recebeu. A conta do câncer, essa fica com o paciente, que às vezes vende o carro, hipoteca a casa, faz vaquinha na internet, e no fim toma o remédio genérico indiano porque o original custa o que custa porque foi caro descobrir.
A lição que os dados do ivonescimabe ensinam, se alguém quiser aprender, é antiga e monótona. Onde há liberdade para arriscar capital, há inovação. Onde há proteção rígida da propriedade intelectual, há incentivo para inventar. Onde o preço é livre para sinalizar escassez, o recurso corre para onde faz mais diferença. E onde o Estado resolve organizar a coisa toda de cima, o resultado é fila de espera, protocolo desatualizado e a sensação vagamente heroica de estar salvando vidas enquanto se enterra a próxima geração de curas. Câncer não espera reunião interministerial. O mercado, com todos os seus defeitos, entrega. O planejamento central, com todas as suas boas intenções, enterra.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.