O superávit comercial da Suíça quase dobrou no segundo trimestre, e a notícia passou despercebida na imprensa brasileira pelo motivo mais previsível do mundo, ninguém aqui gosta de olhar para o espelho quando o reflexo é constrangedor. Um país sem petróleo, sem soja, sem minério de ferro, sem litoral, encravado entre montanhas geladas, vende relógios, remédios, máquinas de precisão e chocolate para o planeta inteiro com margem de lucro que faria qualquer ministro da Fazenda tupiniquim chorar de inveja. E o faz sem plano plurianual, sem BNDES subsidiando amigo do rei, sem lei de conteúdo local, sem MP salvadora da pátria publicada às três da manhã.
Quer dizer, a Suíça produz porque deixa produzir. É essa a fórmula secreta, o pulo do gato, o segredo guardado a sete chaves que nenhum manual de política industrial brasileiro ousa escrever. Carga tributária moderada, moeda que ninguém precisa proteger com controle de capitais porque ela se protege sozinha pela credibilidade de séculos, judiciário que decide contrato como quem cumpre horário de trem, e um Estado que entendeu há muito tempo que sua função é arbitrar o jogo, não jogar de camisa vestida contra o contribuinte. O resultado aparece na balança comercial. Aparece porque tem que aparecer. Não é milagre alpino, é aritmética.
Olha, enquanto isso, o Brasil comemora quando o superávit vem do agronegócio, ou seja, quando vem daquilo que o governo consegue estragar menos. É revelador. Toda a nossa exportação relevante nasce apesar do Estado, nunca por causa dele. A soja não recebe carinho do Planalto, recebe multa do Ibama. O boi não é celebrado, é acusado de aquecer o planeta pelos mesmos gabinetes que aplaudem passeata pedindo caminhão a diesel para transportar cartaz de papelão. E ainda assim aquele setor entrega. Imagine se pudesse trabalhar em paz.
Me diz uma coisa, para onde vai o dinheiro que o suíço não gasta financiando burocracia inútil? Vai para pesquisa privada em farmacêutica, vai para engenharia de máquinas que ninguém no mundo sabe copiar, vai para capital de giro de pequenas indústrias familiares que atravessaram duas guerras mundiais sem pedir socorro ao contribuinte. E o dinheiro que o brasileiro deveria ter para investir, onde está? Está financiando a folha de pagamento de estatais deficitárias, está pagando juros de dívida contraída para bancar auxílio eleitoral, está sustentando aposentadoria de marajá com 55 anos de idade e 30 de contribuição fictícia. A janela quebrada aqui é o país inteiro, e ainda tem gente aplaudindo o vidraceiro estatal.
O contraste não é geográfico, é filosófico. Um país entendeu que riqueza se produz quando o produtor pode ficar com o fruto do que produz. O outro país entendeu que riqueza é algo que aparece magicamente e cabe ao político sábio decidir quem merece receber pedaço. O primeiro exporta remédio que salva vida na Ásia. O segundo exporta dinheiro para paraíso fiscal e recebe de volta em forma de investimento estrangeiro travestido, porque nem o próprio capital brasileiro confia no Brasil. Diga se não é constrangedor.
A cada trimestre em que a Suíça bate recorde de superávit, o mundo recebe uma aula gratuita que se recusa a assistir. A receita está publicada, disponível, testada por três séculos. Ninguém copia porque copiar exige coragem de demitir burocrata, cortar mamata, aposentar sindicalista, mandar embora meio ministério. E coragem, essa mercadoria, o Brasil não importa nem exporta. Produz zero, consome menos ainda.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.