A notícia chega enxuta, quase envergonhada, como se fosse rodapé de balanço. A senior vice-president e general counsel da Kratos Defense, uma das queridinhas do complexo industrial-militar americano, vendeu US$ 48.500 em ações da companhia que ela mesma assessora juridicamente. Quarenta e oito mil e quinhentos dólares. Um valor pequeno para os padrões de Wall Street, grande o suficiente para acender qualquer alarme minimamente treinado. Não acendeu. O terminal da Investing.com registrou, o algoritmo publicou, e a manada seguiu comprando papel de empresa que vive de contrato com o Pentágono.

Quer dizer, a advogada-chefe de uma empresa que fatura em cima de dinheiro do contribuinte americano decidiu, num dia qualquer, transformar ações em caixa. É a pessoa que enxerga primeiro os contratos, os processos, os riscos regulatórios, as investigações que ninguém do lado de fora ainda cheirou. E o mercado, essa criatura supostamente eficiente que precifica tudo em milissegundos, olhou para o insider vendendo e concluiu que não era nada. Nada mesmo. Continue comprando, cidadão, o Estado americano vai continuar imprimindo dólar para bancar drone que ninguém pediu.

Aqui é onde a história fica interessante para quem sabe olhar. A Kratos não fabrica sabonete. Vive de orçamento militar, de rubrica congressional, de linha discreta em projeto de lei aprovado às três da manhã. Cada dólar que entra no caixa dessa empresa saiu antes do bolso de alguém que nunca votou naquele contrato específico. O Departamento de Defesa distribui, os lobistas negociam, os generais aposentados sentam no conselho e os advogados internos, esses artistas do detalhe, redigem cláusulas que garantem margem gorda contra qualquer imprevisto. Quando essa figura vende ação, ela não está fazendo diversificação de patrimônio; está lendo um documento que você e eu não temos permissão de ler.

O que se vê é a manchete anódina. O que não se vê é a assimetria brutal de informação que separa quem redige a papelada de quem compra papel no home broker achando que está participando do capitalismo. O sujeito lá fora, o dentista de Ohio, o aposentado da Flórida, o brasileiro que descobriu a bolsa americana via influencer, esses estão do lado errado da mesa e nem sabem. E o regulador, aquele órgão que existe supostamente para nivelar o jogo, se contenta com o formulário 4 preenchido e devidamente arquivado. Cumpriu-se o rito. A pilhagem legal segue seu curso.

E note bem, isso tudo se passa dentro de um setor que só existe na escala atual porque o governo americano decidiu, décadas atrás, que segurança nacional justifica qualquer nível de gasto. Empresa de defesa não compete por consumidor, compete por comitê. Não inova para servir o cliente, inova para agradar o comprador único que paga com dinheiro que não é dele. É o casamento perfeito entre a empresa que fatura sem risco e o burocrata que assina sem responsabilidade, e o divórcio nesse arranjo custaria caro demais para os dois lados. Por isso ele não acontece. Por isso a advogada vende tranquila, embolsa os quarenta e oito mil, e volta amanhã para redigir a próxima cláusula.

Me diz uma coisa, se o mercado fosse mesmo eficiente e a informação fluísse mesmo livremente, insider trading legalizado, essa coisa maquiada de disclosure obrigatório, seria escândalo diário. Não é porque todo mundo já se acostumou. E acostumar-se com o roubo travestido de procedimento é o primeiro sintoma da servidão voluntária. Enquanto o cidadão comum se preocupa com o preço do ovo, o andar de cima negocia no escuro, com luz oficial, e recolhe o troco em silêncio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.