A Tailândia acaba de anunciar que vai despejar oitenta bilhões de dólares em investimentos na indústria de chips até 2050, e o mercado deve aplaudir de pé como se a promessa fosse profecia cumprida. Vinte e cinco anos de horizonte, um número redondo e vistoso, e a certeza de que algum comitê em Bangkok descobriu, antes de todo mundo, qual será a arquitetura tecnológica dominante em 2050. Quer dizer, ninguém no planeta sabe direito o que vai comer no jantar de domingo, mas o governo tailandês já sabe onde alocar oitenta bilhões pelas próximas duas décadas e meia.

Olha, esse tipo de anúncio tem uma coreografia previsível. Primeiro vem o número gigante, sempre em dólares, para impressionar a imprensa financeira. Depois vem a moldura estratégica, a conversa sobre soberania tecnológica, cadeia de valor, competir com Taiwan, com a Coreia, com a China. E no fim, discretamente, aparecem as isenções fiscais, os subsídios cruzados, os terrenos concedidos, a energia subsidiada, os incentivos que ninguém detalha na manchete. O contribuinte tailandês vai financiar fábricas que talvez existam, para produzir chips que talvez sejam competitivos, num mercado que talvez ainda faça sentido em 2050. Três talvez empilhados custam caro.

Me diz uma coisa, quem exatamente decide onde esse dinheiro vai parar? Não é o consumidor, que sinaliza demanda comprando ou não comprando. Não é o empresário arriscando capital próprio, porque o capital é dos outros. É um arranjo de gabinete onde funcionário público, consultor contratado e executivo de multinacional se sentam à mesma mesa para desenhar o futuro industrial de um país. Cada um sai com um pedaço. O executivo leva o subsídio, o consultor leva o contrato, o funcionário leva a promoção, e a conta fica com quem não estava na sala. É o mesmo roteiro de todo plano quinquenal desde que o mundo é mundo, só que agora se chama política industrial e usa PowerPoint em inglês.

Há uma ironia deliciosa em achar que o Estado consegue prever a trajetória de uma indústria cuja característica definidora é a mudança acelerada. Os chips de hoje são obsoletos amanhã, as fábricas que custam bilhões viram sucata quando a geometria muda, e cada geração de tecnologia enterra a anterior. Taiwan não se tornou potência de semicondutores porque um burocrata em 1985 desenhou um plano de sessenta e cinco anos. Tornou-se porque um punhado de empresários teimosos, com incentivos reais e risco real, tomaram decisões erradas e certas em ciclos curtos, corrigindo rota o tempo todo. Planejamento de vinte e cinco anos numa indústria que muda a cada dezoito meses é o oposto exato do que fez essa indústria funcionar em outros lugares.

E tem o problema mais profundo, aquele que ninguém no anúncio menciona. Cada dólar que o governo tailandês vai canalizar para a indústria de chips é um dólar que sai de outro lugar. Sai do bolso do contribuinte via imposto, sai do bolso do consumidor via inflação, sai do bolso do empreendedor que teria usado esse capital para algo que o mercado realmente quer hoje. O emprego criado na fábrica de chips subsidiada aparece na foto, ganha entrevista, vira caso de sucesso. Os empregos que não nasceram porque o capital foi confiscado e realocado ninguém conta, ninguém entrevista, ninguém lamenta. É a economia do que se vê contra a economia do que não se vê, e o político sempre prefere o que rende inauguração.

No fim, o anúncio tailandês é mais um capítulo do velho conto de que governo esperto escolhe vencedores. A história econômica dos últimos cem anos é um cemitério de projetos industriais estatais que consumiram fortunas para entregar decepções, quando não desastres completos. Mas a memória é curta, o incentivo político é imediato, e a impressora de manchetes está sempre ligada. Oitenta bilhões até 2050 é uma promessa que quem fez não estará no cargo para cumprir, e quem vai pagar ainda nem sabe que foi voluntário.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.